Título: Brasil vira jogo e só mantém déficit com África e Oceania
Autor: Sergio Leo
Fonte: Valor Econômico, 18/11/2005, Brasil, p. A4
O Brasil virou o jogo no comércio internacional e hoje só tem déficit na balança com os blocos econômicos da África e Oceania. Há cinco anos, o cenário era menos favorável ao país, que acumulava resultados negativos expressivos nas relações comerciais com Ásia, Mercosul, Oriente Médio e Canadá. Os exportadores reverteram o déficit de US$ 697,7 milhões na balança de 2000 em superávit que deve ultrapassar US$ 40 bilhões esse ano. A alta do preço das commodities e a maior produção agrícola impulsionaram as vendas para China e União Européia, enquanto a desvalorização cambial elevou a competitividade dos manufaturados nos EUA e no Mercosul. De acordo com Júlio Sérgio Gomes de Almeida, diretor-executivo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), essa reversão pode ser explicada tanto pela queda nas importações realizadas pelo país nos anos de 2000 e 2001, devido à recessão econômica, quanto pelo crescimento das exportações a partir de 2003, apoiado em um aumento de competitividade das empresas brasileiras e do aquecimento da economia mundial. "E ainda teve a grande desvalorização cambial de 2002 que ampliou a competitividade da indústria nacional", comenta. As grandes empresas brasileiras se reestruturam desde 2000 para cá e não vêem mais na exportação uma janela de oportunidade momentânea. Hoje, segundo cálculos de Gomes de Almeida, elas destinam de 25% a 30% de sua produção para vendas a outros países, o que ajuda a balança a ter um superávit maior e mais prolongado. A conjuntura econômica mundial também foi determinante para a virada na balança comercial brasileira. Do lado dos EUA, houve um aprofundamento de sua posição de maior déficit do mundo, demandando produção de muitos países. Houve ainda a demanda explosiva da China por commodities, o que fez com que esses itens se valorizassem bastante no mercado internacional. Em 2000, o maior déficit da balança comercial foi registrado com a Ásia, US$ 2,27 bilhões. Em 2004, esse resultado havia se transformado em superávit de US$ 2,285 bilhões. De janeiro a setembro desse ano, o saldo é menos expressivo, mas chega a US$ 1,05 bilhão. Fábio Silveira, sócio-diretor da MS Consult, diz que o dinamismo da economia asiática mudou a lógica do comércio global e do Brasil. Há seis anos, os asiáticos respondiam por 11,5% das exportações brasileiras. De janeiro a setembro desse ano, o percentual foi a 15,4%. O comércio do Brasil com a China ganhou destaque. As exportações brasileiras para o país saltaram de US$ 1,08 bilhão em 2000 para US$ 5,44 bilhões em 2004 e estão em US$ 4,76 bilhões até setembro de 2005. A relação do Brasil com EUA e UE, que ainda são seus maiores parceiros comerciais, estava equilibrada em 2000. O país apurou superávit de US$ 363,8 milhões com os EUA e US$ 735,7 milhões com a UE. Em 2004, os exportadores celebraram robustos superávits de US$ 8,83 bilhões com os americanos e US$ 8,23 bilhões com os europeus. As exportações do Brasil para os EUA cresceram de US$ 13,4 bilhões em 2000 para US$ 20,3 bilhões em 2004. O resultado foi bastante influenciado pelo aumento das vendas de aviões para os americanos, que subiram de US$ 1,7 bilhão para US$ 2,4 bilhões no período. Já os embarques de motores para veículos saltaram de US$ 328 milhões para US$ 605 milhões. Por outro lado, os produtos americanos perderam espaço no mercado brasileiro para manufaturados chineses. As importações brasileiras vindas dos EUA recuaram de US$ 13 bilhões em 2000 para US$ 11,5 bilhões em 2004 e sua participação nas compras totais do país foi de 23% para 18%. A Ásia, em contrapartida, ganhou participação nas importações brasileiras, saltando de 15,4% em 2000 para 22,8% de janeiro a setembro desse ano. As importações de produtos chineses já cresceram 47,8% esse ano. Castro, da AEB, diz que "existe o risco de voltarmos a ter déficit com a China". Ele avalia que os preços da soja e do minério de ferro vendidos pelo Brasil para a China devem cair. Já as cotações dos manufaturados que a China exporta para o Brasil tendem a recuar lentamente. Silveira, da MS Consult, acredita que "ainda é cedo" para avaliar se o Brasil voltará a ter déficit com a Ásia. Em 2005, A China deve crescer 8,5%. "Precisa ocorrer uma combinação muito perversa para que o Brasil perca mercado na China", avalia Carlos Urso, economista da LCA Consultores. Segundo ele, o Brasil precisaria insistir em uma apreciação cambial por mais um ano e meio e seria necessária também uma desaceleração da economia mundial mais rápida e forte do que a projetada atualmente, com aumento dos juros e das tarifas de importação nos Estados Unidos. "Aí o preço das commodities cairia e o Brasil ganharia menos no comércio com a China. Além disso, haveria uma enxurrada de manufaturas chinesas no país, devido aos baixos preços", estima Urso. A expectativa da LCA é uma desaceleração da economia mundial mais moderada, de forma que o Brasil consiga ajustar sua taxa de câmbio ao novo cenário.