Título: Governistas negociam depoimento de ministro à CPI
Autor: Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 18/11/2005, Política, p. A9

A determinação dos oposicionistas em convocar o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, a depor na CPI dos Bingos obrigou o governo a buscar uma trégua com PSDB e PFL para minimizar os danos políticos do depoimento. Ficou acertado, em reunião realizada ontem com o presidente da CPI, Efraim Morais (PB), o líder da minoria no Senado, José Jorge (PE), e o vice-presidente da Casa, Tião Viana (PT-AC), que na próxima terça-feira o requerimento de convocação do ministro será colocado em votação. É provável que Palocci preste depoimento entre a última semana deste mês e a primeira de dezembro. Lideranças oposicionistas, entre elas Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) e Arthur Virgílio (PSDB-AM), cobraram ontem na tribuna do Senado a presença do ministro na CPI. A oposição tem maioria na comissão, o que torna a convocação de Palocci uma certeza. Além disso, como o ministro colocou-se à disposição do Senado para prestar quaisquer esclarecimentos, o governo perdeu os argumentos contra a convocação. Efraim conversou por telefone com o ministro, e chegou inclusive a parabenizá-lo pelo desempenho na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), onde participou de audiência pública na quarta-feira. Coube ao senador Tião Viana fazer a ponte entre a oposição e Palocci. O petista deu ao ministro a garantia de que o Senado o tratará com respeito. Segundo Tião Viana, a boa vontade da oposição aumentou depois que o ministro reconheceu, publicamente, os méritos de governos passados, entre eles o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Palocci afirmou na CAE que os resultados positivos da economia são reflexo de medidas tomadas ao longo da última década. O PT evita dar como certa a permanência de Palocci no cargo, apesar de o ministro estar mais tranqüilo e seguro. "Não tratamos disso", limitou-se a comentar Tião Viana, que conversou isoladamente com Palocci antes de dar andamento a acordos no Senado. O petista negou, entretanto, o pacto firmado para votar o requerimento. "Ainda vamos decidir na próxima terça-feira se será necessário ele vir", argumentou. "Acho que o ministro foi absolutamente convincente, o que significa que não há qualquer necessidade de depor. Mas, se a oposição entender que é necessário, temos que refletir e discutir democraticamente". O PFL chegou a propor a votação do requerimento de convocação ainda ontem, o que foi contornado pelo PT. "Depois de entendimentos, marcamos tudo para terça-feira", confirmou o senador José Jorge. A oposição considera que Palocci não forneceu todas as explicações sobre as denúncias de supostas irregularidades cometidas por seus ex-assessores. Já o governo acha que o ministro foi efetivo ao considerar que os ataques a ele são fruto de um ataque político irracional. Pefelistas e tucanos vão insistir na convocação, mas admitem a permanência do ministro no cargo é boa para o país. "Entre Dilma e Palocci, ficamos com Palocci", definiu José Jorge. A estratégia da oposição, agora, é explorar as divergências internas do governo em relação à política econômica. O próprio Palocci deu munição aos oposicionistas ao responder pela primeira vez, às críticas da ministra Dilma, que discorda da rigorosa política fiscal de longo prazo. No Rio, o deputado José Dirceu (PT-SP), ex-ministro-chefe da Casa Civil, disse que Palocci deu "respostas cabais às questões que foram levantadas, dentro da política que o presidente Lula definiu", em seu depoimento. Em sua avaliação, o objetivo da oposição durante a sessão foi o de "arrastar a crise e ir aprofundando e agravando-a". "Foi uma tentativa de criar ingovernabilidade no país", disse Dirceu ao chegar ao Rio para participar de um ato em defesa de seu mandato na Universidade Cândido Mendes. "Acho que a ida do ministro Palocci foi satisfatória e deu uma resposta á altura tanto à questão econômica quanto às denúncias que vinham sendo feitas. Acredito que a opinião pública assim também enxergou". Amanhã outro ato em sua defesa está programado para ser feito em São Paulo. Dirceu acredita que a Câmara dos Deputados vai lhe fazer justiça porque não existem provas contra ele. "As duas teses principais, do mensalão e do empréstimo, caíram por terra. Tanto que os relatores agora dizem que não existe nem mensalão nem empréstimo. Não sei como é que posso ser acusado de algo que não existe. Minha vida foi devassada nesses últimos meses, e não encontraram nada contra mim", disse ele, acrescentando que acredita que se a votação fosse hoje seria absolvido. Reconhecido por jornalistas durante o leilão de linhas de transmissão promovido ontem pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), na Bolsa do Rio, Adhemar Palocci, irmão do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, foi esquivo nas respostas e acabou deixando o local, conduzido por um assessor. O irmão do ministro é diretor de Planejamento da estatal Eletronorte, que participava do leilão. Ele é acusado de tráfico de influência no IRB e na Superintendência de Seguros Privados (Susep) e ainda de participação de um esquema de caixa 2 para o PT de Goiânia, envolvendo a seguradora Interbrazil. Questionado se pretendia comparecer a uma das CPIs , respondeu com um "não", mas no sentido de "me deixa em paz", acrescentando: "Fica frio". Sobre o depoimento do irmão na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, disse apenas: "Vocês é que têm que avaliar"(Colaboraram Chico Santos e Janaina Vilella, do Rio)