Título: O recado de Palocci ao mercado e ao governo
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 18/11/2005, Opinião, p. A12

A situação não poderia ser mais definidora do momento: um ministro até há pouco tempo intocável assume, diante de parlamentares, a posição de réu, ao responder a acusações sem que ninguém as tivesse diretamente feito naquele momento; uma oposição que rapidamente muda da ameaça de inquirição policial para o debate quase ameno sobre política econômica; e uma bancada situacionista que, na falta de adversários, assiste a cena de camarote. A audiência do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE), na quarta-feira, refletiu um momento da crise política - que tem mais de meio ano - onde nem governo, nem oposição, nem os personagens que percorrem as CPIs e as páginas dos jornais como suspeitos por escândalos e irregularidades, e sequer seus detratores, sabem qual a tática mais apropriada para ganhar a queda-de-braço política. Palocci talvez tenha sido o único com alguma clareza estratégica. Foi lá para dar um recado - dirigido mais ao governo do que aos parlamentares: ele é o avalista da atual política econômica. Sem ele, o mercado que aposte em outra coisa. As afirmações do ministro na Comissão diferiram radicalmente das feitas em agosto, numa entrevista coletiva convocada para defender-se de acusações de irregularidades. Há três meses, deu um recado para acalmar o mercado: a política econômica é do governo e será mantida, independentemente de quem estiver no comando da economia. Na CAE ele deu outro: "Estou preparado para seguir essa política, não outra", ressaltou. Isso é o mesmo que sinalizar ao mercado: se eu sair do governo, é porque Lula optou por outra política econômica. Com as pressões abertas da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, contra a apertada política fiscal conduzida por ele, a equação que fica parece ser a seguinte: ou Palocci ou um ministro da gastança. Foi esse o discurso levado pelo secretário-executivo da Fazenda, Murilo Portugal, em reunião, na terça-feira, com o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) e Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) - com o adendo do que isso poderia representar para a economia, que até agora suportou bravamente todos os sobressaltos políticos do último ano. E talvez o argumento sirva muito mais para explicar o estranho comportamento da oposição - que se recusou a questionar o ministro sobre as acusações das quais é alvo -, do que propriamente a decisão tática de submetê-lo posteriormente a um fórum inquisitorial, a CPI dos Bingos, onde tem maioria. Tanto a CAE como a CPI, afinal, prestam-se ao espetáculo quando televisionadas durante todo o tempo. O efeito seria o mesmo. O PSDB ficou oito anos no governo, com FHC, mais dois na administração Itamar Franco. São dez anos de cadeira presidencial. O PFL, exceto o período Lula, jamais esteve do lado da oposição. A falta de prática talvez explique mudanças de humor tão radicais: em alguns momentos, a ação contra o governo beira o golpismo; quando a situação chega no seu limite, há o recuo, acompanhado da justificativa de que mais vale desgastar lentamente o presidente. No limite, encara a briga com o governo como uma disputa de rua, lançando mão de ofensas pessoais ao presidente - como acusá-lo de bandido ou até mesmo ameaçá-lo com tapas. O fato é que a oposição ainda não conseguiu entender como fazer oposição e capitalizar eleitoralmente uma ação antigovernista. E como brigar com o governo sem acuar as elites econômicas, pouco dispostas a enfrentar as turbulências econômicas que decorreriam de uma radicalização política. O PT, que foi sempre oposição, não conseguiu ainda se tornar situação após quase três anos de governo. No poder, ainda lava roupa em público. A crise por que passou o partido não resultou em mais unidade ou solidariedade ao governo. Palocci, uma vez no comando da economia, abstraiu de sua militância partidária. Agora que não é mais o intocável do governo, amarga a realidade de não se constituir, nem de longe, numa unanimidade no seu partido. Até bem pouco, valeu-se do medo da oposição de mexer com a economia. Pelo menos esta semana - e, se os fatos não o atropelarem, pode usufruir disso por mais algum tempo - contou mais uma vez com a inestimável ajuda oposicionista.