Título: Setor aéreo tem expansão apesar da crise
Autor: Janaina Vilella
Fonte: Valor Econômico, 18/11/2005, Empresas &, p. B2
Lucros e empresas aéreas são palavras que raramente são vistas na mesma frase. Entre 2001 e o fim deste ano, as companhias aéreas mundiais deverão ter acumulado prejuízos de US$ 43 bilhões. Depois dos choques representados por ataques terroristas, guerras, gripe aviária e desaceleração pós-pontocom, o setor enfrentou um quinto golpe, na forma dos altos preços do combustível para aviões. Os preços do petróleo dobraram nos últimos dois anos. Os dos combustíveis mais do que dobraram, em parte também afetados por gargalos na capacidade das refinarias. A maioria das empresas aéreas dos Estados Unidos está sob recuperação judicial. Pode parecer um pouco complicado, então, argumentar que a aviação está passando por uma onda de expansão, quando a maioria das manchetes sugere o contrário. As evidências, no entanto, são esmagadoras. Se excluíssemos o aumento no custo do combustível, o setor teria mais do que recuperado todas as perdas registradas desde 2001. Embora as empresas aéreas dos Estados Unidos ainda operem no vermelho, no resto do mundo elas estão se mantendo por si sós. Várias grandes companhias na Europa e Ásia estão se saindo extremamente bem. O tráfego de passageiros cresce em quase todos os lugares. Índia e China estão explodindo, e o Oriente Médio surge como um centro global de conexão entre Europa, Ásia e Austrália. O fenômeno das empresas aéreas de baixo custo espalha-se da Europa Ocidental para o Leste Europeu e vai mais além, até a Índia. Com milhões de pessoas que nunca haviam voado começando a ganhar os ares, o aumento anual no volume de passageiros será equivalente ao número total registrado em 1969. As empresas que transportarão esses milhões de novos passageiros usarão o mesmo modelo operacional das companhias de baixo custo. O setor fez muito para remodelar-se. As principais empresas alteraram suas redes para lidar com a concorrência nos vôos de curta distância, ou retroceder frente a ela. A produtividade da força de trabalho mundial aumentou cerca de 30%, depois dos extensos cortes de empregos. Depois de vários anos de demora, as empresas dos Estados Unidos, sob proteção judicial, estão finalmente encarando seus demônios. O problema que as diferencia das demais são custos trabalhistas desproporcionalmente altos, que representam quase 40% das despesas operacionais totais, contra 20% na Ásia e cerca de 30% na Europa. Mesmo se os preços do petróleo retrocedessem para cerca de US$ 30 (cerca de US$ 15 abaixo do que muitos no setor esperam), o lucro operacional representaria apenas 10% da receita, muito pouco para um negócio que exige tanto capital, algo que reflete a ferocidade da concorrência. Ainda assim, isso seria o dobro da margem verificada nos anos áureos de meados da década de 90 - um sinal do avanço das empresas. O desafio para o setor é se certificar que uma reviravolta não resulte - nestes tempos de altos preços do petróleo - em uma expansão que não se traduza em lucros. Parte do destino das empresas aéreas repousa em suas próprias mãos - as operadoras podem, por exemplo, proteger-se contra mais aumentos do petróleo. A recuperação do setor, no entanto, sinaliza que a burocracia governamental continua sendo o maior obstáculo para seu progresso no futuro. A liberalização do espaço aéreo interno na América e Europa representou um grande impulso que está se expandindo, com a onda de novas empresas de baixo custo na Ásia. Em contraste, os vôos de longa distância tendem a depender de acordos bilaterais que limitam a liberdade de voar para onde as forças de mercado levem as empresas. E a maioria dos países não permite que estrangeiros controlem mais de 49% das ações das aéreas. Os governos deveriam acabar com as leis que limitam o controle e com qualquer regulamentação que não seja técnica ou relacionada à segurança.