Título: Seis investidores têm interesse na Varig
Autor: Janaina Vilella
Fonte: Valor Econômico, 18/11/2005, Empresas &, p. B2
Aviação Com receita menor e gastos maiores, companhia registrou prejuízo de R$ 384,2 milhões no terceiro trimestre
Duas semanas depois da aprovação pelos acionistas da Varig da proposta de venda da VarigLog (cargas) e da VEM (manutenção) por, no mínimo, US$ 62 milhões para a Aero-LB - que tem como sócios a TAP e os brasileiros Álvaro Gonçalves e Alberto Camões - cerca de seis investidores já acessaram o "data room" com dados sobre a venda das subsidiárias. O presidente do conselho de administração da Varig, David Zylbersztajn, não citou os nomes dos interessados, lembrando que existe uma cláusula de confidencialidade, mas adiantou que do total de investidores, apenas um seria novo. Os demais seriam grupos que já demonstraram interesse em participar do processo de recuperação da companhia. O processo de compra e venda da VarigLog e da VEM se encerra em 19 de dezembro. Caso o valor das subsidiárias seja maior que o valor pago pela TAP, outras empresas poderão apresentar propostas. E caso surja uma oferta maior que a da TAP, e essa decida não fazer uma contraproposta, receberá US$ 12,4 milhões. Esse é o valor do prêmio equivalente a 20% do capital inicialmente investido pelos portugueses na VEM e VarigLog. A firma de auditoria Deloitte fará uma nova avaliação das duas subsidiárias até a primeira semana de dezembro, e o valor servirá como referência para as novas propostas que serão entregues pelos interessados à Varig. A falta de regulamentação pelo Banco Central do artigo 67 da lei de recuperação judicial não permitiu, até agora, que a Varig obtivesse créditos com bancos brasileiros, o que, para Zylbersztajn, atrapalha o processo de recuperação. Essa regulamentação facilitaria o recebimento de créditos de quem emprestasse recursos para empresas em recuperação judicial. O presidente do conselho chegou a marcar uma audiência como Ministério da Fazenda para discutir o assunto na quarta-feira, mas a reunião foi cancelada por causa do depoimento do ministro Antonio Palocci, na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. "Nos surpreende o fato de o BC ainda não ter regulamentado esse artigo porque isso já foi pedido há mais de seis meses. É incompreensível essa omissão em relação à lei", disse Zylbersztajn. A entrada do BNDES na operação de financiamento aos investidores da VarigLog e VEM, segundo ele, melhorou a percepção dos bancos em relação ao risco da empresa, mas ainda não foi suficiente para abrir linhas de crédito. "Chegamos a dar as ações da companhia como garantia para bancos estatais e privados que quisessem emprestar os US$ 62 milhões. Era necessário que o governo criasse uma linha de crédito específica para empresas em recuperação judicial", reivindicou o advogado da Varig, Daltro Borges. Apesar da participação do governo no plano de reestruturação por meio do BNDES, Zylbersztajn considera que a solução da Varig ainda não é consenso em Brasília. "Acho que é preciso um engajamento integral do governo num processo para dizer: olha, nós achamos que a Varig merece sobreviver. Nós temos mecanismos legais, formais e transparentes que não deixam margem a qualquer tipo de favorecimento", disse Zylbersztajn referindo-se ao encontro de contas entre os R$ 4,5 bilhões que a Varig deve à Receita Federal e ao INSS e quantia similar que a União deve à aérea por perdas com o congelamento de tarifas. Zylbersztajn disse que a Fundação Getúlio Vargas foi contratada para fazer uma avaliação da dívida da Varig com o governo. A expectativa dos advogados da área é de que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) julgue o recurso movido pela União contestando o ressarcimento de dinheiro até 14 de dezembro. A Varig registrou no terceiro trimestre deste ano um prejuízo de R$ 384,2 milhões ante um lucro líquido de R$ 261,7 milhões apurado no mesmo período de 2004. No acumulado do ano, até setembro, houve prejuízo de R$ 778,1 milhões, 155% maior que o do mesmo período de 2004. A companhia teve receita líquida de R$ 1,8 bilhão no terceiro trimestre, com baixa de 17,7%, devido a problemas com a redução da freqüência de vôos, principalmente em decorrência das 15 aeronaves da frota que estão paradas para manutenção. A participação de mercado da empresa no trimestre foi de 27,76%. "O problema é basicamente em função das aeronaves paradas, que não geram receita. Além disso, a apreciação do real influenciou nos resultados, já que 60% da venda de bilhetes é em dólar ou em euro", disse Ricardo Bulara, diretor de relações com investidores da Varig. Segundo ele, outro problema foi o custo do combustível de aviação que, em 2004, representava 35% dos custos totais e em 2005 e agora já responde por 39% dos custos. O resultado bruto da companhia caiu cerca de 38%, para R$ 374,4 milhões. O item outras despesas/receitas operacionais - que inclui passivo atuarial e contingências - também pesou para o pior resultado. Passou de um valor positivo em R$ 231,8 milhões no terceiro trimestre de 2004 para um negativo de R$ 303,4 milhões no mesmo período deste ano. (Colaborou Carolina Mandl, de São Paulo)