Título: Suspeita de fraude em laudo sobre aftosa
Autor: Mauro Zanatta e Marli Lima
Fonte: Valor Econômico, 18/11/2005, Agronegócios, p. B12
Crise sanitária Ministério desconfia que o Paraná coletou amostras em bezerros, não em animais com sintomas
A demora do Ministério da Agricultura em esclarecer as suspeitas de aftosa no gado do Paraná tem um motivo tão forte quanto devastador: o governo federal desconfia que o Estado fraudou a coleta de amostras e enviou ao laboratório oficial de Belém sangue de bezerros que sequer tinham idade para ser vacinados. Um dirigente do ministério que acompanha o episódio desde o anúncio das suspeitas, em 21 de outubro, afirmou ao Valor que os testes sorológicos realizados em quatro municípios (Maringá, Grandes Rios, Loanda e Amaporã) revelaram que os resultados negativos para a doença não poderiam ser tão "limpos" quanto os obtidos pelo laboratório. Segundo o dirigente, tudo indica que o sangue do gado do Paraná não veio de animais vacinados ou que reproduziram o vírus da aftosa. "Por isso, houve a demora. Se não aparecerem as proteínas do vírus ou da vacina, ficará provada a fraude". Se confirmada, a fraude pode derrubar todo o sistema de defesa agropecuária do país, já que o Paraná tem um nível satisfatório de confiança. Oficialmente, o ministério nega a suspeita de fraude, mas quer mudar as regras internas para obrigar que a coleta de material, em casos de emergência, seja acompanhada por fiscais federais nos Estados. "Hoje, temos que confiar cegamente nos Estados", afirmou a graduada fonte. Hoje, os Estados executam as ações e o ministério audita o trabalho, além de avalizar o sistema em organismos internacionais. Autoridades paranaenses foram procuradas para comentar a suspeita do ministério, mas não retornaram as ligações. As divergências entre o ministério e o governo do Paraná, que pareciam superadas, voltaram à tona por causa de uma acusação feita ontem (dia 17) pelo secretário da Agricultura em exercício do Estado, Newton Pohl Ribas. Ele afirmou ter recebido uma proposta do ministério para reconhecer a existência de focos de aftosa no Estado. Ribas disse que a sugestão partiu de técnicos do ministério em reunião no dia 9 de novembro, quando foram divulgados os resultados negativos sobre os exames feitos com animais do Estado. "Disse que não tinha poder para isso e que teríamos de conversar com o governador, o vice-governador e a iniciativa privada, que são os maiores interessados", disse Ribas após reunião do Conselho Estadual de Sanidade Agropecuária (Conesa), em Curitiba. O secretário afirmou que, na ocasião, foi convocado pelo ministério para esclarecer os procedimentos adotados pelo Estado desde o diagnóstico clínico da doença. Ele se negou a revelar os nomes das pessoas que estiveram na reunião.
Paranaenses dizem que ministério sugeriu a confirmação de focos apesar dos resultados negativos dos exames
Relatos sobre a proposta, que teria irritado o governo paranaense, já circulavam nos bastidores desde a semana passada no Estado. Ribas ressalvou que, naquela quarta-feira, o ministro Roberto Rodrigues e o secretário de Defesa Agropecuária, Gabriel Maciel, estavam na Bolívia, mas não confirmou se ambos sabiam do teor da conversa. "Era uma sugestão (...) Seria mais fácil para o ministério, frente aos procedimentos que teria de realizar, para resgate da imagem do próprio ministério, do Brasil, do mercado de carnes etc", afirmou. Maciel negou: "Jamais pedimos isso. Participei de todas as reuniões e nunca tratamos disso (...) É um absurdo. Estão querendo confundir". O governador em exercício do Paraná em exercício, Orlando Pessuti, também negou ter recebido a sugestão. "Para mim, não fizeram essa proposta". Uma fonte do ministério ouvida pelo Valor disse que houve, sim, uma proposta ao Paraná. Mas com outro sentido: o Estado assumiria voluntariamente o abate sanitário do gado nas regiões suspeitas para dar uma "garantia adicional" aos importadores. Isso aceleraria a volta do Paraná ao mercado externo. Ribas insistiu, porém, ter tratado do tema com o governador Roberto Requião (PMDB). "O governador me perguntou: 'Newton, nós temos aftosa no PR?' Respondi: governador, até a data de hoje, com os laudos que temos, e são muitos, negativo." Requião teria, então, orientado a equipe a manter a posição. Ribas admitiu que a demora na divulgação dos laudos gerou as desconfianças. E tentou explicar o segredo em torno do assunto até agora: "Não caberia ao governo falar da proposta". Segundo ele, a proposta não fazia sentido. Antes da declaração de Ribas, o economista do Sindicarne, Gustavo Fanaya, corroborou a versão. "Existem pressões por parte do governo federal, do Ministério da Agricultura, para que o Paraná aceite que tem febre aftosa", disse. Ele creditou a pressão à " necessidade" do ministério em recuperar sua credibilidade, abalada com a demora em reconhecer a aftosa no Mato Grosso do Sul. O presidente do Sindicarne, Péricles Salazar, criticou a demora na divulgação do laudo final sobre as suspeitas no Estado. "Forças ocultas estão querendo deixar o Paraná fora da exportação". Segundo ele, há pressões de empresas de outros Estados, como São Paulo, Goiás, Mato Grosso e Minas. "Há interesses econômicos de grandes grupos privados, que estão dificultando nossa completa liberação".