Título: Reação à abertura na UE vai aumentar, avisa deputado
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Fonte: Valor Econômico, 22/11/2005, Especial, p. A14
Ao ser indagado sobre quanto recebe de subsídios agrícolas por ano, o presidente da poderosa Comissão de Agricultura do Parlamento Europeu, o deputado francês Joseph Daul, não hesita um segundo. Tira rapidamente o telefone celular do bolso, liga para o número de sua fazenda na Alsácia (França) e repete a pergunta a seu filho Dominique: "Quanto? 55 mil euros? E isso porque a gente produz um pouco de tabaco, não é?" Personagem influente na definição da posição agrícola européia nas negociações globais, Daul veio a Genebra às vésperas de nova reunião ministerial do G-4 - o grupo formado por Brasil, Estados Unidos, Europa e Índia - dizer ao diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy, que a atual proposta da UE é a que pode ser aprovada pelo Parlamento. "Já estamos na linha vermelha do aceitável. Pode até haver ajustes técnicos, mas não se pode esperar nova oferta, porque aí teremos problema sério", avisou. Ele saiu com a impressão de que Lamy, ex-comissário de comércio da UE, "não pensa suficientemente na Europa". O deputado, membro do UMP, partido do presidente Jacques Chirac, alerta que as reações à liberalização agrícola vão aumentar na Europa. "A Alemanha tem agora um ministro de agricultura que vem da Baviera e o novo governo da Polônia deve levantar a voz. A França não estará mais só." Ele apóia o comissário europeu do Comércio, Peter Mandelson. "É verdade que ele mudou a maneira de negociar, preferindo colocar na mesa logo a oferta final, mas tem razão de ficar chateado porque não viu nada dos outros." Joseph Daul oferece abrir ao repórter toda sua contabilidade para comprovar que os bilhões de dólares anuais de subsídios só evitam o desaparecimento da agricultura européia, protegem o meio-ambiente e a paisagem rural e evitam mais problemas sociais. Joseph Daul herdou nove hectares em Pfettisheim, na fronteira com a Alemanha, e ao longo dos anos aumentou a propriedade para 75 hectares. Produz 20 hectares de beterraba, 20 de cereais, outros 10 de tabaco e tem 262 cabeças de gado. "O subsídio maior vem para o tabaco, 40% do que recebemos. Mas meu filho, que dirige a terra, só fica com cerca de ? 1.100 por mês. Sua mulher trabalha fora para ajudar e minha mulher também coloca a mão na terra sem cobrar nada." "As exigências ambientais, sanitárias e outras são enormes. Os custos representam os olhos da cara na Europa. Sem subsídios, meu filho teria de abandonar a agricultura. Aliás, de todos meus amigos, só eu continuo no ramo", argumenta. Ele insiste que essa situação "já precária" está ameaçada pelo apetite do Brasil e de outros exportadores agrícolas. E menciona cifra mirabolante: 750 mil empregos seriam perdidos na Europa, incluindo os serviços prestados aos agricultores, se a proposta do G-20 para cortar 54% em média nas tarifas agrícolas fosse aprovada na OMC. Por isso, apóia a exigência da Comissão Européia de diferenciação entre países em desenvolvimento. "Essa rodada não pode ser só para o Brasil e a China, tem de beneficiar sobretudo os países pobres". Lembrado de que o Brasil tem pelo menos 40 milhões de pobres, ele retruca: "Escute, o Brasil na agricultura é rico. O problema desse país é de repartição de renda e isso é problema interno, não das negociações na OMC. Se a Europa baixasse as barreiras ao açúcar, e se dois centavos a mais fossem para os cortadores de cana, eu já sofreria menos por essa medida." "Vemos no Parlamento Europeu o Brasil como uma ameaça porque não podemos resistir à sua competitividade", acrescenta. Nesse cenário, o deputado europeu deixa claro que o Brasil tampouco deve esperar um enorme ganho adicional nas negociações UE-Mercosul. "A Europa só tem um bolso", diz. Acha que o Brasil "já ganhou" o setor de frangos na Europa, terá cota maior para carne bovina e desmontou o regime de açúcar do velho continente. Onde ele acredita que o Mercosul pode ganhar é na exportação de etanol, favorecido pelo preço do barril de petróleo a US$ 60. No fim de seus contatos em Genebra, Joseph Daul mostrou-se perplexo: "Eles (negociadores) estão longe da realidade agrícola. Só se fala em cifras, sem as nuances do que está ocorrendo no terreno. Se realmente representantes agrícolas estivessem na mesa, seria muito mais fácil chegar a um acordo." O deputado exemplifica que os brasileiros entenderiam que os europeus estão sendo empurrados a comprar menos soja para ração animal, buscando outros substitutos, por exemplo. E também que a ameaça para o Brasil, no futuro, pode ser a Rússia, "celeiro histórico da Europa".