Título: Greve de fiscais amplia perdas na exportação de carne
Autor: Alda do Amaral Rocha
Fonte: Valor Econômico, 23/11/2005, Agronegócios, p. B12

Trabalho Seara revela que já houve cancelamentos de contratos por parte de importadores da Europa

A greve dos fiscais federais agropecuários já provoca cancelamento de contratos de importação de carne de frango do Brasil por parte de clientes europeus. Após 16 dias de paralisação, além das perdas estimadas em US$ 10 milhões diários com frango que deixou de ser exportado, o setor ainda enfrenta os cancelamentos de importadores da Europa, que aproveitam um momento de queda na demanda pelo produto no continente para refutar o frango brasileiro. "Já há cancelamento por parte de clientes da Europa, onde a demanda por frango está em queda por causa do surgimento da gripe aviária", disse Sérgio Rial, diretor-presidente da Seara, controlada pela americana Cargill. Com demanda menor e embarques atrasados - já que não há emissão de certificados sanitários para exportação -, os europeus começaram a cancelar contratos. A Seara, que foi afetada, vai tomar medidas judiciais contra a decisão desses clientes, afirmou Rial. Para o presidente da Seara, a greve dos fiscais é "uma catástrofe". "[As empresas] não têm onde estocar e como exportar", afirmou em entrevista ao Valor. Também impacta a credibilidade do Brasil como exportador de carnes. De uma certa forma, acredita, o Brasil acaba abrindo espaço para outros países exportarem o produto ao não cumprir os contratos com seus clientes. Sem conseguir desovar estoques, a Seara já suspendeu o abate de aves na unidade de Forquilhinha (SC) - 165 mil cabeças/dia - , que tem a produção direcionada para o mercado externo. E a partir de hoje paralisa o abate de 4,5 mil suínos por dia na unidade de Seara, também no estado de Santa Catarina. Preocupada com o impacto da greve em toda a cadeia produtiva, a Seara convocou também para hoje paralisação de uma hora em todas as suas sete unidades de aves e suínos do país e chamou autoridades locais para a manifestação. A empresa, que já deixou de embarcar US$ 20 milhões por causa da greve dos fiscais, defenderá que o Ministério da Agricultura autorize veterinários das Secretarias de Agriculturas Estaduais a emitir o certificado sanitário. Rial também considera que as reivindicações dos fiscais devem ser ouvidas. "Eles têm um papel vital dentro da cadeia, tiveram um papel importante no avanço das exportações brasileiras de carnes e talvez não tenham sido reconhecidos", observou. Além dos resultados das empresas do setor, caso a greve persista poderá causar também demissões no segmento. Segundo Sérgio Rial, as maiores empresas do setor geram aproximadamente 1 milhão de empregos direta e indiretamente, parte dos quais pode ser afetada se a greve durar mais duas semanas. Além do impacto nas exportações, o mercado interno também pode ser afetado, segundo o presidente da Cargill. Como os estoques estão parados nas fábricas, pode haver problemas na logística para entregar o produto em pleno período de festas de fim de ano. O executivo queixou-se ainda que apesar das medidas judiciais determinando que o trabalho dos fiscais seja feito, não há garantia de que sejam cumpridas. A Seara, por exemplo, ainda não foi beneficiada pelas medidas, mesmo tendo obtido pareceres favoráveis na Justiça. O cronograma de investimentos da Seara, que planeja crescer no Brasil, também já está sendo afetado pela paralisação dos fiscais. A expansão da terceira linha de produção de termoprocessados em Itapiranga (SC), por exemplo, está atrasada já que os processos industriais precisam ser aprovados pelo Ministério da Agricultura. "Toda indústria vai rever o cronograma de investimentos", afirmou Sérgio Rial.