Título: Ministro escanteia Dilma e só sai se quiser
Autor: Cristiano Romero e Raymundo Costa
Fonte: Valor Econômico, 24/11/2005, Política, p. A9

Crise Palocci aguarda confirmação de que poderá executar um superávit superior a 4,25% do PIB

A exemplo do que ocorreu sucessivas vezes quando o chefe da Casa Civil era o deputado José Dirceu, o ministro Antonio Palocci venceu a queda de braço com a ministra Dilma Rousseff e só deixará o Ministério da Fazenda, neste momento, por vontade própria ou se for atingido de forma irremediável pelas denúncias investigadas na CPI dos Bingos. Foram 15 dias de tensão, em que o presidente Lula chegou a colocar o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) de sobreaviso para a hipótese de ter de substituir Palocci - o líder do governo no Senado permanece sendo a alternativa de Lula para o cargo, mas teria de ser um "novo Mercadante", mais ortodoxo do que Palocci, para conquistar credibilidade. A crise teve início no dia 9, uma quarta-feira, com a entrevista de Dilma Rousseff a "O Estado de S. Paulo" com duras críticas à política econômica, e começou a caminhar para um desfecho na manhã de ontem, quando o presidente Lula, ao discursar no Rio, declarou que Palocci é "imprescindível". "Todo o mundo sabe o que ele significa para a economia brasileira", disse. Na terça-feira, enquanto Palocci prestava depoimento no Congresso, Lula teria sinalizado que concorda com uma das exigências do ministro - a elevação da meta de superávit primário das contas públicas de 4,25% para até 4,7% do PIB. Palocci ficou animado com as palavras de Lula no Rio, mas ainda aguarda a confirmação de que poderá executar superávit superior ao da meta oficial. Segundo assessores do presidente, um sinal de que Palocci ainda aguarda essa confirmação foi dado ontem, quando o ministro, alegando problema de agenda, provocou o adiamento da reunião preparatória da Junta Orçamentária. Remarcada para hoje, a reunião poderá se realizar já sob a nova orientação de Lula. Se isso acontecer, a tendência mais forte é que Palocci permaneça no cargo. As críticas de Dilma fizeram Palocci e a equipe econômica avaliar que o ministro estava sob "ataque especulativo", segundo expressão de um dos personagens centrais da crise. Pior ainda: com o aval do presidente Lula. No dia seguinte, quinta-feira, Palocci resolveu testar o presidente. Numa conversa no Planalto, o ministro disse a Lula que não se considerava indispensável e que não tinha nenhum problema em sair do governo. Mas, fez uma ressalva: "Minha saída não pode ser um sinal de que se vai liberar a gastança, pois, se acontecer, o governo está perdido". Ficou evidente que Palocci só permaneceria no cargo se recebesse de Lula apoio total à política executada pelo Ministério da Fazenda. Lula respondeu que não queria sua saída e que ele era indispensável ao governo. Aparentemente, não convenceu o ministro. Não só porque teve mais de uma oportunidade pública para fazer uma declaração explícita de apoio, e não o fez, como também passou a fazer consultas sobre a economia com outras pessoas. Uma delas foi o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que raramente é visto no Palácio do Planalto. Meirelles está integralmente fechado com a política de Palocci. Costuma, inclusive, doutrinar outros ministros. Mas não pensava em deixar o BC na hipótese da demissão de Palocci, como chegou a ser noticiado. Na realidade, ele era uma das opções imaginadas por Lula para substituir o ministro. Um dos personagens que acompanharam a crise pelo lado de Lula e de Palocci assegurou ao Valor que o presidente nada teve a ver com a entrevista de Dilma. Ao classificar de "rudimentar" a proposta de ajuste fiscal de longo prazo da área econômica, admitir uma inflação maior em troca de mais crescimento e reivindicar mais gastos, a ministra falou o que de fato pensa, assumiu um ponto de vista que é majoritário no PT e serviu de porta-voz de boa parcela dos ministros, principalmente, daqueles chamados de "gastadores". Ainda à época de José Dirceu na Casa Civil, chegou a ser articulada a confecção de um "manifesto de ministros" por um desafogo no orçamento de investimentos. Diante da repercussão da entrevista, a própria Dilma teria feito a auto-crítica e reconhecido que se excedera. Nas reuniões seguintes da coordenação, demonstrou abatimento - não tem sido nem sombra da Dilma que intervém no debate e tem opinião sobre todos os assuntos. Muito embora Lula esteja bastante satisfeito com o seu desempenho, pois a Casa Civil se tornou mais dinâmica e voltou a dar fluxo aos projetos, o fato é que não teria gostado da intervenção de Dilma no debate econômico Palocci e sua equipe, no entanto, continuavam a se sentir desprestigiados. O ministro julgou que sua autoridade foi posta em questão e que, sem ela, não poderia continuar à frente do cargo. Esperava, portanto, um aval público de Lula, mas na primeira oportunidade que teve, o presidente elogiou Dilma. Em outra ocasião, apoiou o debate entre ministros. Na sexta-feira seguinte, em Salvador, a ministra voltou a criticar a política econômica. O comportamento de Dilma voltou a abater Palocci. No fim de semana, ele fez chegar a assessores do presidente que pediria demissão na segunda-feira. Na noite de domingo, ao retornar a Brasília, o presidente foi informado. Na manhã seguinte, Lula cancelou a reunião de coordenação e chamou Palocci para uma conversa. Os dois ficaram reunidos por duas horas, com Palocci dizendo a Lula que desejava deixar o governo. Ao mesmo tempo em que recusava o pedido de demissão de Palocci, o presidente não dava garantias ao ministro que aceitaria suas condições para permanecer no cargo. A conversa foi difícil e terminou indefinida. Palocci ficou tão frustrado que decidiu não comparecer, na tarde de segunda-feira, à solenidade de sanção da MP do Bem. Irritado, Lula ordenou a seu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho, que localizasse o ministro e o convocasse à cerimônia. Contrariado, sentindo-se fora do governo, o ministro chegou atrasado ao Planalto. Lá, viu Lula dizer que não há uma política econômica "do Palocci", mas do governo. Desanimado, o ministro deixou o Palácio de cara fechada e sem cumprimentar ninguém. Por volta das 9h da noite, foi convocado por Lula para mais um encontro. Foi a mais penosa conversa que Palocci teve com o presidente. O ministro voltou a insistir na necessidade de ter sua autoridade na Fazenda restaurada e explicou que um superávit maior agora pode assegurar um crescimento mais acelerado em 2006. Lula convocou, então, o presidente do BC para participar da conversa. Meirelles reiterou os argumentos de Palocci, mas a reunião terminou novamente indefinida. Na manhã de terça-feira, sentindo-se demissionário, Palocci foi à Câmara, onde prestou depoimento durante nove horas. Em evento em Luziânia (GO), Lula voltou a elogiar o ministro. Dessa vez, de maneira mais enfática. Palocci deixou o Congresso, avaliando que se saiu bem no enfrentamento com a oposição e que, portanto, pelo menos do ponto de vista da classe política, havia conseguido restaurar parte da autoridade perdida. Na madrugada de ontem, recebeu telefonema do presidente, cumprimentando-o por seu desempenho no depoimento. Ainda assim, Palocci foi dormir acreditando que aquele era o melhor momento para deixar o governo. Na manhã de ontem, as novas declarações de apoio feitas por Lula começaram a mudar esse sentimento, mas o ministro permanecia esperando um gesto firme do presidente, que confirme o tom das afirmações que ele fez publicamente nos últimos três dias. Na noite de ontem, estava previsto mais um encontro entre os dois.