Título: Empresária confirma propina em Santo André
Autor: Juliano Basile e Raymundo Costa
Fonte: Valor Econômico, 05/12/2005, Política, p. A12

A empresária Rosângela Gabrilli confirmou à CPI dos Bingos a existência de um esquema de arrecadação de dinheiro junto a empresários de Santo André para abastecer o caixa 2 do PT. Desde a morte do prefeito do município, Celso Daniel (PT), o Ministério Público investiga a relação entre o assassinato do petista e a corrupção na cidade, denunciada pela própria Rosângela em 2002. Ontem, durante três horas de depoimento, ela reiterou a existência de pagamentos de uma "caixinha" mensal a pessoas próximas a Daniel e as represálias que sofreu depois de denunciar o esquema aos promotores e ao próprio prefeito. Ao fim da sessão, o relator da comissão, senador Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), adiantou que pedirá o indiciamento dos empresários Sérgio Gomes da Silva e Ronan Maria Pinto e do secretário de Daniel, Klinger Luiz de Oliveira Souza. "Quando se reunia comigo e com meu pai (Luiz Alberto Gabrilli), Klinger portava um revólver preso à canela e dizia: "Com o poder não se brinca. O poder tudo pode. Cumpra o determinado", relatou Rosângela, ao explicar como o secretário da prefeitura lhe cobrava a propina. "Na verdade, eu nem considerava uma propina. Para mim, sempre foi uma extorsão", completou a empresária, muito nervosa no início do depoimento, com a voz trêmula. Ela chegou a chorar em algumas oportunidades ao relembrar momentos de maior tensão quando do recolhimento da "caixinha". Para a empresária, ela e "todos em Santo André", acreditam que há relação entre a morte do prefeito e o esquema de corrupção. Rosângela revelou também uma conversa travada entre a irmã dela, Mara Gabrilli, e o então candidato à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. Mara esteve na casa do petista em Santo André e relatou todo o ocorrido. "Ela disse que o Celso tinha morrido e que a empresa estava sendo massacrada por conta das denúncias. Mara também disse a Lula que Santo André precisava de uma intervenção", contou a empresária. "O presidente disse que ia ver o que estava acontecendo. Não tivemos nenhuma resposta." Rosângela não deixou claro se Celso Daniel participava ou não do esquema. A empresária disse que o pagamento da propina foi suspenso depois do assassinato. O pagamento da propina era mensal e obedecia uma tabela de preços. Em 1997, quando começou a ser cobrada, a propina era de R$ 332,99 por ônibus mensalmente. Em 2001, já chegara a R$ 550. A Viação São José, da família Gabrilli, chegou a pagar, nesse último ano de cobrança da "caixinha", R$ 41,8 mil mensais. Garibaldi Alves Filho deixou o depoimento convencido da existência do esquema de pagamento de propina em Santo André. "Estou seguro que vou pedir o indiciamento do Sérgio Gomes, do Klinger e do Ronan Maria por corrupção", revelou o senador. Ele disse, porém, que os indiciamentos não têm relação com a morte do prefeito. "A corrupção até pode estar atrelada à morte, mas a polícia e o Ministério Público têm mais ferramentas para investigar isso". O presidente da comissão, Efraim Moraes (PFL-PB), disse que colocará em votação requerimento no qual é pedida uma acareação entre Rosângela e os três envolvidos no esquema.