Título: 'Computador para Todos' não beneficia as camadas mais pobres, revela estudo
Autor: Ricardo Cesar
Fonte: Valor Econômico, 25/11/2005, Empresas &, p. B3

Para o governo federal, a palavra "todos" não inclui os brasileiros de mais baixa renda. Pelo menos no caso do programa de inclusão digital batizado de "Computador para Todos" - antes chamado PC Conectado -, que oferece isenção fiscal e financiamento para facilitar a aquisição desses equipamentos. Segundo pesquisa do Instituto Ipsos Opinion, a iniciativa é ineficaz para a população das classes D e E e só estimula a compra pelas classes C e B. De acordo com o levantamento, 35% da população brasileira não responde a políticas de subsídios, como a oferecida pelo "Computador para Todos", por ter renda disponível negativa - a receita da família fica abaixo de seus gastos no mês. Apenas quem tem renda familiar mensal acima de R$ 500 começa a ter alguma sobra de dinheiro que abre a possibilidade de adquirir bens subsidiados. Segundo a pesquisa, 43% da população estaria disposta a comprar um PC de até R$ 1,4 mil, preço máximo estipulado pelo governo para financiamento dos bancos federais dentro do "Computador para Todos". O programa prevê ainda isenção de PIS e Cofins para máquinas de até R$ 2,5 mil, o que barateia os equipamentos em 9,25%. Apesar do nome do programa, o secretário de logística e tecnologia do Ministério do Planejamento, Rogério Santanna, afirma que o público-alvo do "Computador para Todos" é composto exatamente por pessoas com renda familiar acima de R$ 500 por mês. "A pesquisa mostra que o governo adotou políticas acertadas", diz. "A redução dos preços é importante para a classe C. Para os mais pobres, o governo investe em telecentros e espaços públicos com acesso gratuito à internet." O trabalho do Ipsos mostra a grande diferença no uso de recursos de tecnologia que há de acordo com a renda familiar no Brasil. Cerca de 88,7% das pessoas da classe A possuem um computador em casa, ante 55,5% na classe B, 16,1% na C e apenas 2% nas D e E. Enquanto 87% dos domicílios de classe A têm acesso à internet, isso ocorre em apenas 6,8% dos lares nas classes D e E. Na média nacional, o estudo mostra que 68% da população nacional nunca navegou na internet e 55% jamais utilizou um computador. Apenas 9,6% dos brasileiros usam a internet diariamente e 16,6% possuem um PC em casa. Além disso, a pesquisa mostra que o comércio eletrônico ainda é uma atividade restrita a poucos: somente 6,38% da população brasileira comprou algum produto ou serviço por meio da web nos últimos 12 meses. O número equivale a aproximadamente 20% das pessoas que utilizaram a internet no período. A principal justificativa para não comprar pela internet é a preocupação com a segurança, citada por 36,02% dos entrevistados. Para 17,21% dos brasileiros, a principal atividade realizada quando estão on-line é checar e-mails. Realizar trabalhos escolares (11,48%), procurar informações sobre bens e serviços (8,94%) e ler jornais e revistas (8,64%) vêm a seguir. Aproximadamente 40% dos brasileiros que utilizaram a internet nos últimos 12 meses recorreram à estrutura de governo eletrônico - a oferta de serviços públicos na web. (RC)