Título: Consultoras mais antenadas com problemas sociais
Autor: Vanessa Jurgenfeld
Fonte: Valor Econômico, 25/11/2005, Valor Especial / EMPRESA & COMUNIDADE, p. F3
Para a Natura, que concorre na categoria Grande Prêmio do Valor Social, o desenvolvimento econômico da empresa tem o mesmo peso do desenvolvimento social e ambiental. Essa postura tem reflexos desde o aproveitamento das espécies nativas, que se transformam em óleos essenciais para, então, compor a matéria-prima das linhas de tratamento e beleza. Todos os atores da cadeia produtiva participam desse processo de desenvolvimento com direitos e obrigações. A comunidade recebe a garantia de que a produção será escoada e ao intermediário é assegurada a remuneração justa pelo trabalho de transformação das plantas em óleos essenciais. O respeito aos stakeholders - o termo que define todos os que são influenciados pelas decisões de uma empresa - é condição em cada etapa da produção e todos são beneficiados pela transparência: quando não há condições de fabricar a matéria-prima, o produto fica indisponível e as consultoras repassam a informação para os consumidores. O impacto ambiental das cadeias produtivas também é levado em conta. A Natura diz ter levado às comunidades uma nova tecnologia que evita a queimada, até então utilizada para criar um solo mais propício ao replantio. Além disso, a preocupação da companhia é não transformar a cultura da vez em única fonte de renda do produtor. Em caso de descontinuidade de produção, não fica caracterizada a dependência econômica. Cada novo produto lançado no mercado tem parceria multidisciplinar, segundo a empresa. Nessa relação, o intermediário tem papel produtivo. Não é um mero atravessador, mas um fornecedor que ostenta a tecnologia de transformação da raiz em óleo essencial repassado à Natura. Nessa relação com o fornecedor, a corporação está atenta também à comunidade do entorno, onde as consultoras são a grande ligação. Um dos exemplos de como isso funciona é a escola pública da região de Cajamar, onde uma das consultoras percebeu uma alta taxa de evasão escolar. Detectado o problema, ficou constatado que a evasão tinha ligação direta com a má qualidade do ensino. A situação propiciou uma parceria entre a empresa e o Cenpec num trabalho de qualificação de professores. Isso foi há quinze anos. O trabalho incentivou a Natura a seguir um caminho social na comunidade local, onde a educação formal é valorizada. Pensar no desenvolvimento material da sociedade, usando a educação como ferramenta, faz parte da Agenda 21 da localidade, onde governo, empresa e organizações sociais formam uma tríplice aliança. Envolver todas as escolas em torno da Agenda 21 foi a fórmula encontrada para estabelecer uma parceria em torno das necessidades da cidade. Assim, os alunos das escolas públicas atualizam diariamente os dados sobre Cajamar, num programa de georreferenciamento do qual todos fazem parte. O objetivo é levantar o que há e o que falta no município, de forma a promover uma grande ciranda em que todos participem do futuro de seus bairros e do município. O compromisso com a cidade faz parte da valorização da diversidade com a qual a empresa quer estar comprometida. Mesmo reconhecendo que o estágio ideal ainda não foi atingido, muitos funcionários da Natura garantem que todos estão correndo atrás desse ideal. Mesmo fincando bandeira em países do Cone Sul e em algumas cidades européias, na Natura, os colaboradores repetem a máxima da alta direção, de que a empresa não quer ser multinacional, mas multicultural. Com as cerca de 450 mil consultoras, a noção é de que a relação comercial precisa ir além. Por conta disso, elas estão ligadas na garimpagem de escolas públicas que atendam jovens e adultos para cursar até a oitava série. A consultora, segundo entende a Natura, tem o papel de agente de transformação: além de vender os produtos Natura, é aproveitada como uma liderança na comunidade para disseminar conceitos e influir nas questões sócio-ambientais. A importância dessas profissionais se materializa também no projeto Crer para Ver, que vende produtos artesanais de comunidades de base. No capítulo de qualidade de vida, a Natura controla alimentação, atividade física e a saúde de seus colaboradores. A ginástica pode ser feita na hora do almoço ou do jantar, seguida por profissionais de nutrição e condicionamento físico; gestantes são acompanhadas pelo ginecologista de plantão. O serviço é extensivo a maridos e mulheres de colaboradores e terceirizados. No berçário, onde as crianças permanecem até os quatro anos, o custo chega a R$ 800 mensais por freqüentador, explica Rosângela Brandão, gerente de recursos humanos da Natura. O meio ambiente também está contemplado dentro da própria fábrica, onde há tratamento de efluentes e sistema de reuso de água. Todos os banheiros da empresa contam com água reutilizada. "Não é água potável; serve apenas para acionar os vasos sanitários e irrigar os jardins", avisa Rosângela. Com o rio de Cajamar, o compromisso é não poluir - ao contrário, recuperar as matas ciliares e reflorestar com espécies nativas. A paisagem faz parte de uma área de 700 mil metros quadrados onde está instalada a empresa, dos quais 10% integram a construção das fábricas e escritórios - todos voltados para o exuberante cenário.