Título: Granja-escola gera renda e vira modelo para o mercado
Autor: Vanessa Jurgenfeld
Fonte: Valor Econômico, 25/11/2005, Valor Especial / EMPRESA & COMUNIDADE, p. F3
Uma granja-escola é um dos mais recentes projetos de vulto da Perdigão voltados à responsabilidade social. Viabilizada há dois anos, próxima ao município de Rio Verde (GO), essa granja procura valorizar o funcionário, ensinando-lhe práticas de conservação do meio ambiente e contribuindo para o desenvolvimento das comunidades onde atua, três pilares tidos como fundamentais na empresa, uma das maiores do setor de alimentos do país e finalista ao Prêmio Valor-Social. A granja, assim como outros projetos sociais, estão integrados à estratégia da Perdigão. E é esse o motivo apontado pelo diretor de relações institucionais, Ricardo Menezes, como o grande diferencial das ações da empresa em relação às práticas similares encontradas no mercado. "É uma política da companhia", destaca. Fazer parte dessas ações significa dar atenção e dedicar tempo a projetos voltados à responsabilidade social. "Todo início de ano, os diretores regionais programam ações em suas localidades voltadas à comunidade e a demanda por isso tem aumentado ano a ano, desde projetos para a terceira idade como para crianças e meio ambiente", diz Menezes. A granja começou a existir no papel em 1998, ano em que a Perdigão instalou uma fábrica em Goiás. O projeto, contudo, teve dificuldade em obter recursos junto ao município, parceiro da idéia. Somente em 2001 começou a primeira construção, com investimento de R$ 4 milhões, vindos do Finep, fundo para pesquisas do governo federal. A Perdigão investe R$ 67 mil ao ano. "Em Rio Verde, a granja-escola foi buscar uso alternativo para os dejetos e processos que agregassem rendimentos ao produtor", explica Alencar Mendonça, gestor do projeto. Hoje, dois anos depois de implantada na prática, a granja-escola já apresenta resultados considerados bons pela empresa, como a separação de resíduos sólidos dos líquidos e os primeiros testes de adubos orgânicos, feitos a partir do esterco suíno. Os produtores integrados à empresa ganharão no médio prazo o valor agregado vindo desse subproduto, enquanto a empresa terá dado sua contribuição social e ambiental, uma questão crucial num mercado internacional cada vez mais exigente. A Europa, por exemplo, um dos maiores mercados compradores do frango brasileiro, faz questão de saber o histórico de atuação social e ambiental de uma empresa antes de adquirir seus produtos. Mas não foi sempre assim. A Perdigão e parte da cadeia agropecuária aprendeu com o tempo. No passado, era prática comum entre produtores de suínos, por exemplo, lançar os dejetos de animais em solos e rios, causando um grande problema ambiental. Isso era particularmente grave em Estados com grande concentração de produção, como é o caso de Santa Catarina, maior produtor do país. "Com essa granja, não são repetidos erros do passado", explica o gestor do projeto. O sistema da granja-escola é modelo para a Perdigão e para parte do mercado. Pretende-se que a partir dela a região do centro-oeste não mais importe tecnologia do sul do país, e sim tenha sistemas próprios, desenvolvidos de acordo com o seu clima. A granja, localizada a 45 km da filial da Perdigão em Rio Verde, tem conseguido receita própria. Produz animais (suínos e aves) como um produtor integrado comum e a partir da venda consegue pagar suas contas. Juntamente com alunos e professores pagos pela Fesurv, Fundação do Ensino Superior de Rio Verde, integrada ao projeto, a granja oferece treinamento e desenvolve pesquisas para melhorar a produtividade no campo. "A granja tem sido fundamental para a Perdigão porque dá apoio e sustentação à atividade do produtor", diz Mendonça. "E é um projeto que ganha importância especialmente quando tanto se discute a sanidade animal no país". Menezes afirma que projetos como a granja-escola passaram a ter mais espaço dentro da empresa a partir de 1994 com a profissionalização da gestão, antes familiar. Os funcionários, na sua opinião, viram por meio dessa nova gestão exemplos de práticas responsáveis, houve sensibilização e desenvolvimento de voluntários para diferentes projetos. "No passado, a Perdigão também tinha um histórico de assistência social, mas não tinha isso como uma política". Hoje, a empresa mostra aos funcionários por meio de boletins todas as práticas responsáveis e há comitês internos para discutir diferentes temas de cidadania, desde controle do uso da água, a segurança no trânsito e doenças sexualmente transmissíveis. "O funcionário recebe essas informações como uma obrigação para transmitir à sua comunidade", acredita Menezes. Espera-se que a partir de 2006, o projeto em Rio Verde cresça e sejam feitos treinamentos na própria granja do produtor ou em eventos como os chamados "dia de campo". Também há expectativa de que o projeto inicie testes com um biodigestor, com o objetivo de, no futuro, poder ajudar o produtor a entrar no mercado, ainda incipiente, de créditos de carbono.