Título: A inflação corrente e os juros futuros
Autor: Cristiane Perini Lucchesi
Fonte: Valor Econômico, 28/11/2005, Finanças, p. C2
O mercado inicia esta semana revisando para cima seus números para a inflação de 2005, sob o impacto de mais uma surpresa: o IPCA-15 de novembro, anunciado na sexta-feira, que veio acima do esperado. Até o final da semana passada, a estimativa era de inflação de 5,53% ao ano neste ano, com relação à meta de 5,10% perseguida pelo Banco Central. Mas, depois do IPCA de outubro já pressionado, com alta de 0,75%, o IPCA que já mostra a inflação nos primeiros 15 dias de novembro voltou a surpreender, com aumento de 0,78%, acima do nível de 0,59% esperado. O impacto foi imediato na curva de juros futuros, que passou a projetar taxas mais altas. É óbvio que o Banco Central tem pouco a fazer para conter a inflação corrente. Mesmo na lógica da política de metas de inflação, uma mexida nos juros hoje só impacta a inflação futura. "A preocupação do BC é que a inflação corrente mais alta acabe contaminando as expectativas do mercado para a inflação em 2006", explica Mônica Oliveira, economista-chefe do Banco Brascan. Hoje, a contaminação ainda não está acontecendo e a expectativa dos investidores é de que o BC continue a reduzir as taxas básicas Selic em 0,50 ponto percentual, para 18,50% ao ano, na reunião de dezembro do Comitê de Política Monetária. "Se os núcleos do IPCA tivessem subido acima do esperado, como ocorreu em outubro, o mercado deixaria sua tranqüilidade de lado", diz a economista. A média dos núcleos do IPCA-15 de novembro, que subiu 0,48%, mostrou estabilidade em relação à alta de 0,49% de outubro e ficou até abaixo da mediana de 0,50% esperada pelo mercado. No IPCA-15 de outubro, no entanto, a alta havia sido bem menor na média dos núcleos: 0,38%. É o núcleo que aponta tendências para a inflação futura. Por isso, no decorrer da sexta-feira, os contratos de juros futuros mais longos passaram a projetar taxas até menores do que na sexta-feira.
BC faz hoje leilão de swap reverso de US$ 500 mi
Na avaliação do mercado, são fatores pontuais que estão pressionando o IPCA para cima. O aumento dos combustíveis é um deles, assim como a forte alta dos alimentos 'in natura'. Já a carne bovina mostrou pressão de 5,58%. Mônica Oliveira conta que os alimentos representam quase 30% do IPCA e que os preços da carne bovina estão em alta por causa de resquícios da entressafra. "Mas a desaceleração na alta de preços desse item já se iniciou", afirma. O IPCA-15 de novembro também foi impactado por aumento de tarifas, como por exemplo energia elétrica em Fortaleza e Recife e ônibus em Salvador, que aconteceu em outubro, mas foi captado no índice deste mês, o que não devem se repetir. O vestuário também trouxe pressão, mas por causa da entrada da nova coleção de primavera verão. Desta forma, Mônica Oliveira acredita que o IPCA cheio de novembro já deve mostrar desaceleração na alta de preços, subindo 0,5% e apresentando aumento de 0,46% na média dos núcleos. O Bradesco estima 0,61% no índice cheio e mantém a projeção de 4,49% para 2006. Para Alexandre Lintz, economista-chefe do BNP Paribas, a atividade econômica fraca e a contínua apreciação do real deverão garantir a estabilização da inflação. Enquanto o mercado tiver a mesma percepção que os economistas do Bradesco, BNP Paribas e Brascan, de que o repique na inflação é temporário, e continuar a reduzir sua projeção para a inflação de 2006, hoje em 4,55% ao ano, com relação à meta de 4,5%, o movimento de queda nos juros futuros vai continuar, pelo menos nos contratos de mais longo prazo. No entanto, os números do IPCA-15 de novembro deixaram mais distantes as esperanças de um corte maior nos juros Selic, de 0,75 ponto percentual, em dezembro. Por isso, o contrato futuro das taxas do DI (Depósito Interfinanceiro) de vencimento em janeiro de 2006 passou a projetar taxas mais altas, de 18,199% ao ano, na comparação com os 18,189% de quinta-feira. Os contratos de vencimento em janeiro de 2007, no entanto, tiveram queda nas taxas, que foram para 16,916%, na comparação com os 16,929% de quinta-feira e um tombo forte em relação aos 17,558% do final de outubro. Desde o dia 14 de novembro, esses contratos vêm projetando taxas sempre menores. O dólar deve iniciar a semana em alta, com o anúncio do BC feito na sexta-feira, após o fechamento do mercado, de que vai comprar a moeda americana no mercado futuro por meio dos leilões de swap reverso, o terceiro neste mês, no valor estimado em US$ 500 milhões para diversos vencimentos. Com as compras no mercado à vista e futuro, o BC segurou o dólar a R$ 2,2340, uma queda de 0,40% na sexta-feira, de 0,84% no mês e de 15,84% no ano. O risco-Brasil tem ajudado a derrubar o dólar. Na sexta-feira, foi a 342 pontos básicos, em queda de 4,74% no mês e de 10,70% no ano.