Título: Acusação do ministro de cartel em obras públicas precipitou a queda
Autor: Paulo Braga
Fonte: Valor Econômico, 29/11/2005, Internacional, p. A8
A saída de Roberto Lavagna do governo ocorre depois de uma semana em que o ex-ministro entrou em confronto com outros setores da administração, marcando seu distanciamento em relação à linha do governo mais próxima ao presidente Néstor Kirchner. A partida do ministro termina uma relação tumultuada com o chefe de governo. Lavagna se manteve no cargo graças à sua forte popularidade e apesar de ser ligado politicamente ao ex-presidente Eduardo Duhalde, que passou de padrinho político a maior adversário de Kirchner dentro do PJ (Partido Justicialista, peronista). Com o respaldo obtido nas urnas em 23 de outubro (em parte devido à aprovação à gestão de Lavagna na economia), Kirchner pôde agora prescindir de seu ministro mais popular, mas também do funcionário de seu governo com perfil mais independente, o que acabava gerando choques. Em sua última entrevista coletiva, ontem, Lavagna fez questão de ressaltar essa atitude independente, defendendo a decisão de não se envolver na campanha eleitoral, apesar das pressões que recebeu de membros do próprio governo. "A campanha tomou um tom elevado e tocava a um ex-presidente [Duhalde]. De nenhuma maneira eu podia participar ativamente", disse. Semana passada, ao discursar durante uma reunião da Câmara Argentina da Construção, Lavagna denunciou que empresas do setor estão sendo investigadas por formação de cartel e superfaturamento em obras públicas. A denúncia repercutiu mal dentro do governo, especialmente no Ministério do Planejamento, responsável pela realização de obras públicas e comandado por Julio de Vido, um dos ministros mais fiéis e próximos de Kirchner e adversário de Lavagna dentro do gabinete. Mais tarde, o próprio presidente discursou no mesmo encontro e desautorizou seu ministro, ao dizer que o setor de construção era um dos mais dinâmicos da economia do país. Kirchner disse também que o dinheiro aplicado em obras públicas não deve ser considerado gasto, "mas investimento", contradizendo declarações de Lavagna que havia defendido a redução do gasto em obras públicas como forma de reduzir a demanda. O ex-ministro também não compartilhava a retórica explosiva e o diagnóstico feito por Kirchner de que o problema inflacionário se deve à ação cartelizada de grupos formadores de preços, como os supermercados. Na semana passada, o presidente atacou empresários supermercadistas, acusando-os de conspirar contra a população e trabalhar para que a inflação de 2006 suba. Lavagna deu outro sinal de distanciamento da linha governista ao aceitar participar posteriormente de uma reunião empresarial presidida por Alfredo Coto, principal supermercadista do país, sem reiterar as críticas feitas ao setor pelo presidente. Na entrevista de ontem, Lavagna não quis fazer comentários sobre seu eventual futuro político, mas já é considerado como um provável candidato do duhaldismo à Presidência em 2007. A seu favor tem o fato de que deixa o governo com uma boa situação econômica e sem que a inflação tenha fugido do controle.