Título: Lavagna cai e área política ganha força na economia argentina
Autor: Paulo Braga
Fonte: Valor Econômico, 29/11/2005, Internacional, p. A8
Nova Fase Espera-se agora mais pressão contra empresários por aumento de preços
O presidente argentino, Néstor Kirchner, deu ontem um forte sinal de que pretende ampliar seu controle pessoal sobre a gestão econômica, demitindo Roberto Lavagna do cargo de ministro da Economia. Para o posto irá Felisa Miceli, atual presidente do Banco de la Nación, a maior instituição financeira pública do país. Miceli é tida como fiel aliada do presidente e é a primeira mulher a assumir o cargo de ministra da Economia. Lavagna, de 62 anos, estava no posto desde abril de 2002. Ele sai num momento em que a economia cresce com força, mas o aumento da inflação é uma preocupação crescente. Embora a alta dos preços tenha motivado fortes críticas ao ministro nos últimos dias, as principais razões de sua queda foram políticas (leia texto abaixo). Lavagna foi nomeado pelo ex-presidente Eduardo Duhalde em meio a uma situação de caos, quatro meses depois de o país entrar em default e sair do regime de conversibilidade, que manteve o peso argentino atado ao dólar americano por mais de dez anos. Em mais de três anos, o ministro renegociou a dívida externa com credores privados, de mais de US$ 100 bilhões, e conseguiu fazer com que o país retomasse o crescimento econômico após quatro anos de recessão. Espera-se que o o PIB cresça cerca de 8% este ano. O sucesso da gestão de Lavagna (veja os números abaixo) foi decisivo para que Duhalde conseguisse eleger Kirchner como seu sucessor. Lavagna foi mantido no cargo. Mas, com a consolidação do poder político do presidente, aumentaram os choques com o ministro e a ruptura acabou ocorrendo. "Creio que o presidente está exercendo o direito de mover-se por seus próprios critérios depois de um resultado eleitoral importante. É perfeitamente legítimo", disse Lavagna em entrevista coletiva concedida após sua demissão. Sem Lavagna, a expectativa é que o governo adote uma postura de maior confronto com setores do empresariado e com organismos financeiros internacionais. Essa percepção fez com que o mercado reagisse de maneira negativa às mudanças no governo. O dólar, que na sexta era negociado a 2,97 pesos para a venda, fechou o dia em 3,02 pesos. A Bolsa caiu 4,5%. "Haverá provavelmente um maior alinhamento do Ministério da economia com o pensamento do presidente", disse o cientista político Sergio Berensztein, da Universidade Torcuato di Tella. Ele acredita que as mudanças no governo (foram substituídos outros três ministros) são consequência do fortalecimento político de Kirchner após a expressiva votação obtida por seus candidatos na eleição legislativa de outubro. Com o aval obtido nas urnas, Kirchner superou o estigma de ter sido eleito com só 22% dos votos. Desde a posse de Kirchner, em maio de 2003, Lavagna atuava como uma espécie de contraponto ao presidente e à ala política do governo. O ministro adotou uma postura dura na negociação com o FMI e os credores da dívida externa, mas sempre atuou para evitar situações de ruptura. Com sua saída, abre-se um horizonte incerto em relação às negociações entre o país e o organismo de crédito internacional. "A partir de agora deve haver menos restrição do ministro aos desejos da ala política do governo", acredita Berensztein. Para analistas de Wall Street, a saída de Lavagna é um mau sinal. "A renúncia é uma notícia muito ruim para o governo, porque ele era um dos poucos membros do gabinete que parecia entender as preocupações e interesses dos investidores", disse à agência Reuters Alberto Bernal, analista do Bear Stearns em Nova York. Já o ex-secretário de Indústria Dante Sica tem uma visão mais otimista em relação às mudanças no governo. "Agora, o gabinete está mais alinhado com a vontade do presidente", afirmou. Segundo ele, a coesão pode ser um fator positivo para a gestão do governo, já que havia constantes "curto-circuitos" entre Lavagna e outros membros do governo. "A partir de agora se coloca em jogo a qualidade deste projeto, porque 2006 e 2007 serão anos muito importantes", afirmou Sica. Na sua visão, a coesão entre a área econômica do governo será essencial para combater não só o problema inflacionário, mas principalmente para atuar sobre os fatores que estão influindo sobre os preços, "a estrutura produtiva, as cadeias de formação de preços e a promoção da recuperação do nível de investimento". Entre os problemas que terão de ser enfrentados quase que imediatamente, Sica lista, além da inflação, a busca de alternativas de financiamento caso o país não consiga renovar o acordo com o FMI e a administração de pressões provenientes de sindicatos que buscam conseguir aumentos salariais.