Título: Encontro Lula-Kirchner é marcado por elogios
Autor: Raquel Landim
Fonte: Valor Econômico, 01/12/2005, Brasil, p. A3

Relações externas País reconhece "vocação manufatureira" de sócio

A Argentina reclamou que não pode ser apenas "uma fornecedora de produtos agrícolas". O Brasil concordou e reconheceu a "vocação manufatureira" do sócio do Mercosul. A comemoração ontem dos 20 anos do estreitamento dos laços entre os vizinhos, iniciado pelos ex-presidentes José Sarney e Raúl Alfonsín em 30 de novembro de 1985, foi repleta de elogios e manifestações de concordâncias, mas vazia de compromissos reais na área comercial. Os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da Argentina, Nestor Kirchner, apareceram sorridentes na cidade argentina de Puerto Iguazú - palco do encontro e fronteira com Foz do Iguaçu - reafirmando a relação preferencial entre os dois países, mas sob a sombra da influência cada vez maior da Venezuela de Hugo Chávez na Argentina. Kirchner tinha motivos para comemorar, pois conseguiu do Brasil um apoio explícito contra a "imposição" das políticas das instituições multilaterais de crédito, que "afetem a capacidade de promover políticas de crescimento". "Nossa integração não pode significar uma integração onde um país cresça em matéria industrial, e o outro no papel de provedor de produtos agropecuários", alfinetou Kirchner em seu discurso. "A integração não pode constituir-se uma eterna teoria, apenas apta para ser declamada em encontros protocolares. Benefícios simétricos e compromissos flexíveis devem ser coisas práticas e palpáveis", completou o presidente argentino, bem fiel ao seu estilo. Lula afirmou em seu discurso que "o Brasil quer como sócia uma Argentina forte e confiante, guiada pela criatividade de sua gente e pela reconhecida vocação manufatureira". O presidente brasileiro abusou das declarações de improviso e disse que queria "fazer Justiça" a Kirchner que, mesmo nos momentos de discórdia entre os setores empresariais, não deixou de acreditar no Mercosul. Apesar das declarações do presidente brasileiro, os argentinos saíram do encontro sem a assinatura da Cláusula de Adaptação Competitiva (CAC), nome burocrático para um mecanismo de salvaguardas no Mercosul, que está sendo discutido desde setembro de 2004. A Argentina conseguiu, no entanto, um parágrafo no documento final do encontro, chamado de "Compromisso de Puerto Iguazú", que estabelece o prazo de 31 de janeiro de 2006 para encontrar um "instrumento capaz de evitar o impacto dos desequilíbrios no comércio e assimetrias entre os setores produtivos". Combatidas pelo setor privado brasileiro, as salvaguardas quase foram assinadas ontem. O acordo estava praticamente fechado, mas na sexta-feira as divergências reapareceram. Uma nova reunião foi marcada para segunda-feira, no Rio de Janeiro. O travamento das conversas coincidiu com a queda do ministro da Economia argentino, Roberto Lavagna. Também ficou para depois o acordo automotivo, que rege o comércio mais expressivo entre os dois países. Uma reunião com vários representantes do governo e do setor privado, marcada para ontem, foi cancelada após a queda de Lavagna, por pedido da delegação argentina. Lavagna será substituído no cargo a partir de hoje por Felisa Miceli, que esteve ontem em Puerto Iguazú para um encontro com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que descreveu Felisa como "simpática" e "generosa" e disse que o diálogo entre os dois "foi muito franco". Se os temas comerciais ficaram de fora, Brasil e Argentina aproveitaram a oportunidade para assinar cerca 20 protocolos de cooperação. Lula frisou que Argentina e Brasil têm direito a uma "relação privilegiada" com outros países, mas que "não abrimos mão de que tudo começa pela grande relação entre Brasil e Argentina" - uma resposta indireta aos comentários de que a Venezuela estaria ganhando influência na Argentina. Chávez está comprando títulos da dívida da Argentina, que acaba de sair da moratória. Lula fechou seu discurso com uma anedota. Disse que se o Corinthians - pelo qual já se declarou torcedor fanático em diversas ocasiões - ganhar o campeonato, ele presenteará Kirchner com uma camisa do time, de preferência a número 10, do jogador argentino Carlitos Tevez, estrela do time.