Título: PIB alemão decepciona e UE já avalia intervir no câmbio
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Fonte: Valor Econômico, 12/11/2004, Internacional, p. A9

Desaceleração Queda na exportação reduziu expansão a 0,1% no trimestre

O crescimento da economia alemã desacelerou significativamente, segundo dados divulgados ontem pelo Escritório Federal de Estatísticas. A maior economia da Europa expandiu apenas 0,1% no terceiro trimestre, em relação aos três meses anteriores. É o menor crescimento em mais de um ano e ficou abaixo da expectativa de economistas, de expansão de 0,3%. A desaceleração foi atribuída à queda das exportações, a primeira em cinco trimestres, o que parece confirmar a avaliação de analistas de que a recuperação alemã é muito dependente das vendas externas e, portanto, insustentável. O mau desempenho do PIB mostra a vulnerabilidade da Alemanha à desaceleração econômica mundial e ao impacto da alta dos preços do petróleo.

O crescimento do segundo trimestre foi revisado para baixo: de 0,5% para 0,4%, mesma expansão dos três primeiros meses do ano. Ao ser divulgado, em agosto, o 0,5% havia sido recebido como indício de que a expansão da economia alemã - ainda que dependente das exportações - se acelerava. "O boom das exportações está chegando ao fim", disse Jörg Kraemer, economista-chefe da Invesco Asset Management de Frankfurt. "O apoio do crescimento global deve diminuir e os preços do petróleo minam o poder de compra das famílias e os lucros das empresas. Minha expectativa não é de uma recessão, mas de crescimento muito pequeno nos próximos trimestres." Em parte, a redução da demanda por produtos alemães pode ser atribuída à fraqueza do dólar, que encarece os produtos exportados por toda a zona do euro para fora do bloco. A moeda única européia foi projetada com o objetivo de aumentar o comércio na zona do euro. A maior expansão do comércio, porém, vem acontecendo com o resto do mundo. O baixo valor do dólar - que, segundo analistas, é alimentado pelo elevado déficit americano em conta corrente - preocupa toda a Europa. Nos últimos seis meses, a moeda americana desvalorizou 10% em relação ao euro. Na quarta, a cotação do euro chegou a atingir o recorde de US$ 1,30, mas caiu e ontem a moeda foi cotada por volta de US$ 1,29. O ministro italiano da Economia, Domenico Siniscalco, disse na quarta que a zona do euro está discutindo uma intervenção cambial coordenada pelo Banco Central Europeu (BCE) a estabilizar o euro. Analistas acreditam que outra abordagem que poderia ser adotada pelo BCE é a redução dos juros. A taxa básica de juros na zona do euro está em 2% desde junho de 2003. Apesar de ser o patamar mais baixo já atingido, é considerado alto para a situação econômica. Os EUA, em comparação, só nesta semana aumentaram a taxa básica de juros para 2%, depois de mais de um ano em patamares menores para incentivar o crescimento econômico. O relatório sobre a evolução do PIB alemão "deveria fazer com que o BCE se voltasse para a realidade e se concentrasse mais no crescimento", disse o economista Jacques Cailloux, do JPMorgan Chase de Londres. Em relação à Alemanha, o ministro da Economia e Trabalho, Wolfgang Clement, disse que o fraco desempenho do PIB no trimestre passado representa uma fase e que a queda dos preços do petróleo deve incentivar as exportações alemãs nos próximos meses. O governo está confiante que a economia vai atingir este ano a meta de crescimento de 1,8%, acrescentou. O fato de que as importações cresceram no trimestre é um "sinal positivo" sobre a demanda interna. No relatório sobre o PIB, o Escritório Federal de Estatísticas disse que importações e investimentos na produção aumentaram, mas que essa melhora foi contrabalançada por um declínio nas exportações - ao contrário do que aconteceu nos quatro trimestres anteriores. O documento, porém, não informa qual a evolução das importações, exportações e investimentos. Os dados usados para a compilação do crescimento do PIB devem ser divulgados no dia 23.