Título: PIB surpreende e cai 1,2% no 3º trimestre
Autor: Chico Santos e Vera Saavedra Durão
Fonte: Valor Econômico, 01/12/2005, Brasil, p. A5

Conjuntura Retração foi a pior registrada desde os primeiros três meses de 2003 e ficou acima das previsões

A queda de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre do ano em relação ao segundo - divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - foi a pior taxa registrada desde os primeiros três meses de 2003, ficando bem acima das projeções feitas por bancos e consultorias. A queda já desconta fatores sazonais. Na avaliação do IBGE, o fraco resultado pode ser creditado à alta taxa de juros, que permaneceu em 19,7%, em média, no segundo e terceiro trimestres. Esse nível só foi superado pela Selic de 22% no terceiro trimestre de 2003. A venda de estoques acumulados pela indústria no segundo trimestre (quando ela cresceu 1,7%, o dobro do aumento do consumo das famílias) também foi avaliada como um aspecto decisivo para a retração, derrubando a produção industrial em 1,2% ao longo do terceiro trimestre em relação ao segundo na série com ajuste sazonal. Na comparação com o mesmo período do ano anterior, o PIB cresceu 1%. No ano, até setembro, expandiu 2,6% e, no acumulado em quatro trimestres, 3,1%. Para Estêvão Kopschitz, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), as causas mais imediatas dos resultados são o efeito da política monetária (juros) - apesar do sucesso contra a inflação -, a forte valorização cambial e a carga tributária sobre os investimentos. "Esse trimestre pode ser apenas parte de um movimento de volta do PIB para a média que se verificou nos últimos 12 anos, de 2,9% de crescimento anual", observou Kopschitz, com dúvidas de que este resultado seja apenas um "ponto fora da curva", como argumentou o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, Ele destacou também que "houve uma coincidência entre o baixo desempenho do PIB e a crise política". A influência da crise política, ainda que não como fator primordial, foi destacada por praticamente todos os economistas consultados. Guilherme Maia, da Tendências, disse que ela foi "um fator adicional", ao minar a confiança dos empresários e consumidores. Braulio Borges, da LCA Consultores, disse também que ela prejudicou os investimentos e a demanda. Jason Freitas Vieira, da GRC Visão, disse que a crise teve "clara influência" na "diminuição dos gastos e consumo do governo e na paralisação estatal". Além da indústria, a agropecuária teve contribuição decisiva para a queda do PIB pela ótica da oferta. A retração foi de 3,4% ante o segundo trimestre e de 1,9% em relação ao mesmo período do ano passado. Nessa base de comparação, a indústria cresceu apenas 0,4%. A queda da agropecuária foi o que mais chamou a atenção do ponto de vista da oferta de bens, apesar da atividade ter um peso pequeno, de 10,1% no PIB, diante do peso de 40% da indústria. O declínio da lavoura decorreu, segundo Rebeca Palis, gerente de Contas Nacionais Trimestrais do IBGE, das fortes quebras das três safras colhidas no terceiro trimestre e que têm peso maior no cálculo do IBGE. No caso, a safra do café, apresentou retração de 11,8% no volume colhido, a do trigo encolheu 11% e a da laranja diminuiu 2,6%. "A lavoura puxou o PIB para baixo", afirmou Rebeca. Roberto Olinto Ramos, coordenador das Contas Nacionais do IBGE, explicou que, ao contrário de algumas interpretações de analistas, não houve nenhum impacto da febre aftosa sobre o resultado da economia rural. "A crise da aftosa começou em outubro. Se houver alguma influência, vai acontecer no quarto trimestre, mas não será expressiva, pois durou pouco". Sob a ótica da demanda, o investimento, ou formação bruta de capital, caiu 0,9% se comparada com o segundo trimestre e 2,1% em relação ao mesmo período do ano passado. No segundo trimestre o investimento havia crescido 4,7% em comparação com o primeiro e 7,1% em relação ao segundo trimestre do ano passado. Também registrou queda o consumo do governo, em 0,4%, e a variação de estoques fechou o trimestre com taxa negativa, indicando que a indústria promoveu uma forte desova de mercadorias prontas no período. O IBGE não divulga a taxa. O consumo das famílias, componente de maior peso no PIB (55,2%), continuou crescendo e mostrou expansão de 0,8% na comparação com o segundo trimestre, pelo oitavo mês consecutivo e 2,8% ante o mesmo trimestre de 2004. Segundo Rebeca, o consumo foi movido pela oferta de crédito - com expansão nominal de 39% para pessoa física no período - e estimulado por um aumento real de 4,7% da massa salarial no terceiro trimestre, sustentada pelo rendimento médio do trabalho efetivamente recebido, que avançou 2,3%, e pelo emprego, que aumentou também 2,3%.