Título: Investimento deve ficar estável em 2006
Autor: André Vieira e Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico, 05/12/2005, Brasil, p. A3
Conjuntura Grandes empresários temem efeitos negativos da combinação de juros altos e real valorizado
Grandes empresários, a maioria estrangeiros, avaliam que os investimentos em 2006 vão ficar estáveis. A boa notícia é que as eleições presidenciais em outubro não trazem tantas preocupações como a disputa de 2002. A combinação de juros altos e câmbio valorizado, por sua vez, é o dado que pode perturbar o cenário econômico do ano que vem. Essas foram as opiniões colhidas pelo Valor em entrevistas com um grupo de pesos-pesados da economia brasileira durante a 7ª edição do encontro "Brasil & Parceiros: Oportunidades de Investimentos", ocorrido na sexta-feira, e que contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A fabricante de veículos DaimlerChrysler prevê repetir os mesmos R$ 260 milhões investidos no Brasil neste ano, segundo o presidente Gero Herrmann. Embora mostre um otimismo cauteloso, como boa parte dos outros empresários, Herrmann deixa clara a importância da redução dos juros. "Isso é imprescindível", afirmou ele, ressaltando que as taxas se encontram muito elevadas em termos reais, o que tem acentuado a valorização do câmbio. O dólar barato, segundo Herrmann, afeta a rentabilidade das exportações da empresa, que destina 35% da produção para o mercado externo. O presidente da Ford para a América do Sul, Antônio Maciel, também focou suas críticas nos obstáculos às exportações. Além das reclamações em relação ao câmbio, Maciel lembrou que a questão do ressarcimento de créditos do ICMS nas vendas externas também atrapalha. A valorização do real vem retardando grandes projetos prestes a sair da gaveta. É o caso da International Paper (IP), fabricante de papel, que decidiu reavaliar o orçamento do projeto de Três Lagoas (MS), onde a companhia pretende erguer uma nova fábrica. Avaliado inicialmente em US$ 1,3 bilhão, o custo aumentou substancialmente. "O câmbio nesse nível não ajuda", disse o presidente da subsidiária brasileira, Maximo Pacheco. "Vamos apresentar o novo projeto ao conselho da IP em junho." Isso representa um atraso de seis meses em relação ao prazo inicial. A Basf e a Bayer não fazem grandes planos de investimento para 2006, mesmo apostando numa melhora no setor do agronegócios. "Já fizemos um aumento de capacidade. Por isso, nossos investimentos vão se manter estáveis", disse o presidente da Basf na América do Sul, Rolf-Dieter Acker. A Basf planeja investir 200 milhões de euros até 2009, cerca de 30% a menos do que no ciclo anterior. Para Acker, o câmbio não deve ter grande oscilação, o que impedirá um crescimento intenso das exportações agrícolas como no passado. Tanto a Basf como a Bayer aproveitaram o boom do agronegócio em 2004, com grandes volumes de vendas de fertilizantes. O presidente da Bayer no Brasil, Armin Burmeister, espera que 2006 seja mais favorável. "Será melhor do que 2005, mas não igual a 2004", disse. A Motorola, fabricante de telefones celulares, também deve manter o mesmo volume de investimento para 2006, informou o presidente da subsidiária, Enrique Ussher. Mas Ussher salientou que o valor poderá aumentar, caso a empresa decida trazer novas tecnologias ao país, como o WiMax (tecnologia de banda larga sem fio). O que também preocupa, contudo, é a questão cambial. As eleições presidenciais não tiram o sono da maior parte dos empresários. Para Herrmann, da DaimlerChrysler, a disputa do ano que vem não deve provocar grandes turbulências na economia. Ele lembra que, com os elevados superávits comerciais, o país está mais protegido do que em 2002. Carlos Slim, da Telmex, também deu pouca importância ao quadro político e seu eventual impacto sobre a economia. Dono da Embratel e da Claro, o homem mais rico da América Latina disse que suas empresas podem investir no ano que vem um volume similar aos R$ 2,5 bilhões aplicados em 2005, dependendo do comportamento da demanda. Para alguns setores, como a construção civil, o ano eleitoral pode ser especialmente positivo. A incorporadora Hochtief acredita num bom ano de 2006, segundo o presidente André Glogowski. A empresa, que deve crescer algo como 25% neste ano, espera um aumento de 10% a 20% em 2006. Para ele, a trajetória de queda dos juros influencia as expectativas, mas as taxas ainda tendem a continuar em níveis muito elevados. A mineradora australiana Rio Tinto é uma das empresas que pode aumentar o volume de investimentos no Brasil em 2006. A empresa, segundo o presidente Andrew Connor, tem planos de investir no pólo de Corumbá, em Mato Grosso do Sul, na fronteira com a Bolívia. O problema, segundo ele, é que a decisão depende de mudança na legislação, que restringe investimento estrangeiro na região fronteiriça. "O governo está trabalhando duro para resolver a questão, mas o progresso é lento, e nós não sabemos quando isso estará solucionado", disse Connor. A Rio Tinto planeja investir até US$ 2 bilhões no projeto. Em 2005, a empresa investiu US$ 20 milhões no Brasil, valor baixo para uma companhia desse porte. O empresário Alfried Plöger, da Melhoramentos, foi o único dos empresários ouvidos pelo Valor a dizer que a crise política e as incertezas provocadas pelo cenário eleitoral atrapalham as perspectivas para as decisões de investimento dos empresários. Segundo ele, o recuo de 1,2% do PIB no terceiro trimestre em relação ao segundo já é um sinal de que o quadro político afeta os investimentos. A Melhoramentos, que investiu US$ 7 milhões em 2005, deve reduzir esse valor para cerca de US$ 5 milhões no ano que vem. "Os investimentos serão mais de reposição do que de ampliação".