Título: Linha subsidiada encarece as outras
Autor: Alex Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 07/12/2005, Finanças, p. C8

O Banco Central preparou um estudo técnico, que será divulgado nos próximos dias, que mostra que o crédito direcionado para habitação e setor rural respondem por 7,57% do "spread" bancário do segmento de crédito livre. A tese central do estudo é que há um subsídio cruzado nas linhas de crédito direcionado, ou seja, os bancos cobram mais caro no segmento de crédito livre para compensar o menor ganho nos empréstimos para a habitação e rural, que têm taxas de juros limitadas por tetos. O artigo técnico, de autoria da pesquisadora Ana Carla Abrão Costa, do Departamento de Pesquisa Econômica do BC, só será divulgado nos próximos dias em documento que faz o diagnóstico anual do mercado de crédito livre no país. A autora apresentou ontem as linhas gerais do estudo em seminário sobre economia bancária promovido pelo BC. Pela regulamentação do sistema financeiro em vigor, 25% dos depósitos à vista devem ser dirigidos pelos bancos a empréstimos ao setor rural, com juros máximos de 8,75% ao ano. Outra norma determina que 65% dos saldos em caderneta de poupança devem ser aplicados em crédito imobiliário, com juros limitados a 12% ao ano mais a taxa referencial (TR). Em virtude do direcionamento obrigatório, diz Ana Carla, os bancos deixam de investir os recursos em aplicações mais vantajosas. Isso, afirma, é compensado com a cobrança de juros maiores em financiamentos com juros livres, como cheque especial, capital de giro e crédito pessoal. Para medir o impacto desse subsídio cruzado, a pesquisadora utilizou como as taxas praticados em mercado no swap de 360 dias. A conclusão foi de que, no caso dos financiamentos habitacionais, o subsídio cruzado responde por 2,55% do spread bancário; no caso do dos empréstimos rurais, o impacto seria de 5,02%. O estudo foi feito com dados de 40 bancos relativos a 2001. Em dezembro daquele ano, o spread médio geral era de 28,7 pontos percentuais. O trabalho, segundo a pesquisadora, ajuda a medir os custos e benefícios do crédito direcionado. Ela pondera que, na literatura econômica, existem justificativas para essa intervenção do Estado - por exemplo, quando o mercado é imperfeito e existem assimetrias que impedem os bancos de conhecer o cliente, ou quando o retorno social de um segmento de crédito supera o retorno privado. Mas, segundo ela, o crédito também tem custos, como o aumento do risco das carteiras dos bancos, que passam a emprestar para um público que, em situações normais, não trabalharia. (AR)