Título: O segundo sexo
Autor: Eliana Cardoso
Fonte: Valor Econômico, 08/12/2005, Brasil, p. A2

Em português associa-se o telhado de vidro às pedras que o homem prudente não atira. Mas, em inglês, teto de vidro ("glass ceiling") é a barreira invisível que impede as mulheres de galgarem posições de poder nas grandes empresas. Nos EUA, embora detenham quase metade dos empregos no mercado de trabalho, as mulheres ocupam menos de 8% das posições administrativas mais altas. Os números são ainda piores nos países da Europa e no Japão, para os quais a informação existe. Difícil acreditar que no Brasil a situação seja diferente. Não é fácil explicar a pequena participação da mulher nos postos de chefia. Pois grupos heterogêneos são mais eficientes do que os homogêneos para resolver problemas. E a mulher prima por atributos-chave do bom administrador, como a capacidade de se comunicar, de trabalhar em grupo e de desempenhar várias tarefas ao mesmo tempo. Talvez a mulher seja menos ambiciosa e, com certeza, é vítima de um estereótipo que a pinta como incapacitada para posições de liderança. Também não participa dos "networks" informais, onde se repartem negócios. E a licença-maternidade interrompe o trabalho e a corrida por promoções. Por outro lado, a legislação requerida para a igualdade de direitos já existe na maioria dos países onde as mulheres lutaram por seus direitos. Já em 1893, conquistaram o direito ao voto na Nova Zelândia. Mas em poucos países o voto feminino foi introduzido antes da Primeira Grande Guerra. Nos EUA, a mulher ganhou o direito ao voto apenas em 1920, embora a Constituição norte-americana de 1776 tivesse declarado todos os homens iguais perante a lei. No Brasil, a Constituição de 1937 trouxe o direito ao voto para as mulheres. Mas a França, que levantou a bandeira da liberdade, igualdade e fraternidade em 1789, só garantiu o direito de voto das mulheres em 1944. Lento é o progresso. Durante o século 20, das 32 mulheres que exerceram o cargo de presidente ou primeiro-ministro, 24 subiram ao poder depois de 1990. E boa parte do trabalho ainda está por fazer nos países onde os homens preferem esconder a fêmea debaixo do chador. No Irã, embora as mulheres representem 50% da população com diploma universitário, apenas 14% das pessoas empregadas são mulheres. Em Uganda, as mulheres produzem entre 60% e 80% de todos os produtos agrícolas (para exportação e consumo local), mas possuem apenas 7% da terra. Na Índia, apesar da ilegalidade do dote desde 1961, o marido, decepcionado com os presentes trazidos pela esposa, queima-a num "acidente" na cozinha. São mortes que chegam a 6.000 por ano. O fato é que a igualdade requer mais do que legislação. Você pode votar e ainda assim continuar a ser estereotipada e mal paga. A discriminação contra as mulheres aparece na diferença dos salários recebidos por mulheres e homens com qualificação e posição iguais. Mesmo nos EUA, onde são mais vocais e organizadas, as norte-americanas ainda recebem o equivalente a 72% do salário pago aos homens. O contraste no Brasil também é grande, embora, desde a Constituição de 1934, seja proibida a diferença salarial entre funcionários de sexos diferentes que cumpram a mesma função.

Mulheres só puderam votar nos EUA em 1920

Mas mudar atitudes e comportamentos é muito mais difícil do que mudar a legislação. E o bem-estar da mulher requer não apenas uma sociedade disposta a aceitar as escolhas femininas, mas também uma mulher racional capaz de fazer escolhas. Apesar das mudanças sociais e legais, Madame Bovary seria hoje tão infeliz quanto no seu tempo. Pois não era o marido chato a razão de seu tédio. Nem foi a sociedade que a forçou a reencontrar a banalidade do casamento no adultério. Era infeliz e o seria hoje também porque não sabia pôr os pés no chão nem fazer escolhas racionais. Há ainda quem acredite que faltam à mulher modelos que lhe permitam visualizar o papel que pode desempenhar e, assim, delinear suas ambições e conquistá-las. Pode ser. Passar em revista as mulheres mais famosas da literatura universal dá margem a todo tipo de especulação. Não faltam mulheres fabulosas em Shakespeare, que criou Rosalinda em "As you like it" (Como queiras): mulher de conta, peso e medida. E Cleópatra (em "Antony and Cleopatra"): narcisista, irônica, fascinante e mais esperta que seus inimigos. Mas a personagem feminina dominada pela ambição é Lady Macbeth, um modelo que nem mesmo a mulher com uma gana desenfreada de sucesso gostaria de imitar. Além de Lady Macbeth, muitas outras personagens femininas provocam horror em vez de inspiração. Hedda Gabler, de Ibsen, com seu impulso autodestrutivo, é uma mulher fatal de extraordinário fascínio e perversidade, que casou com um marido bocó. Mas seria absurdo atribuir as maldades de Hedda Gabler à condição feminina. James Joyce dizia que quem considerasse Ibsen um feminista, deveria pensar nele (Joyce) como um bispo. E os modelos de carne e osso? Lady Di desmente o receio de que uma dondoca, cujo papel público deriva do marido, não será levada a sério. Ela tinha mais fama do que substância, mas decidiu fazer alguma coisa sobre as minas de guerra. Posou para os fotógrafos, murmurou clichês, repartiu seu charme e deu certo: as minas passaram a fazer parte da agenda mundial. Do outro lado, a senadora Heloísa Helena acredita que essa abordagem está fora de moda. De cabelo amarrado num rabo de cavalo e camiseta, fala bravo. Mas também consegue o que quer: influencia o rumo da política brasileira. Uma e outra demonstram que a sociedade está mais aberta para aceitar uma vasta gama de escolhas. Em tempo. Diego Rivera completaria hoje 118 anos se ainda fosse vivo. O mais genial dos pintores mexicanos virou marido de Frida Khalo na década passada. Vitória do segundo sexo? Não. Triunfo indevido do marketing, pois Rivera será sempre um pintor de maior talento do que Khalo.