Título: Para Godinho, empréstimos ao PT eram fictícios
Autor: Catherine Vieira
Fonte: Valor Econômico, 09/12/2005, Política, p. A7

O ex-superintendente do Banco Rural Carlos Roberto Godinho voltou a denunciar a existência de uma triangulação entre a instituição financeira, o empresário Marcos Valério de Souza e o PT para maquiar empréstimos feitos pelo banco à agência SMP&B e que foram repassados ao partido em 2003 e 2004. Godinho, que depôs ontem por mais de cinco horas na CPI dos Correios, disse que o Banco Central poderia ter detectado as irregularidades, tendo sido "leniente" no relatório sobre as finanças do Rural, divulgado em agosto. "Houve uma fiscalização do BC que começou em setembro de 2004. Os empréstimos não foram abordados no relatório final, apesar de todas as informações requisitadas terem sido repassadas. Não compete a mim julgar o trabalho do BC, mas eles tinham condições de levantar todas as irregularidades", sustentou Godinho. Indagado pelo deputado ACM Neto (PFL-BA), sub-relator da CPI, sobre se o BC teria tido complacência com o Rural, o ex-superintendente defendeu os auditores. "A fiscalização foi muito rigorosa. O que me surpreende é o resultado final", disse. O relator da CPI, Osmar Serraglio (PMDB-PR), afirmou que pedirá informações sobre a auditoria realizada pelo BC.

Godinho também confirmou à CPI que os empréstimos do Rural à SMP&B foram concebidos "para não serem pagos". Durante quatro anos, ele foi o superintendente de "compliance", justamente a instância que fiscaliza e acompanha a realização de empréstimos. Cabia à diretoria de Godinho a função de detectar indícios de lavagem de dinheiro nas movimentações financeiras. Ele os detectou nos empréstimos concedidos a Valério.

"As garantias apresentadas eram fracas. E os empréstimos nunca eram liquidados. Curiosamente, apesar de as contas de Marcos Valério terem movimentação muito alta e saldo, os pagamentos nunca eram feitos, mesmo quando venciam os prazos. É tudo absolutamente atípico", afirmou Godinho. Ele lembrou também que o empréstimo foi classificado pelo Rural, a despeito das fracas garantias apresentadas e de a SMP&B já ter tido problemas com pagamentos de empréstimos anteriores, com o rating AA, o mais alto dentre as nomenclaturas de empréstimos. "Por essa razão, as operações nunca foram provisionadas porque, apesar das fracas garantias, o empréstimo era considerado como altamente confiável", explicou. Na fiscalização, o ex-superintendente diz ter detectado as irregularidades. A descoberta consta de relatório repassado aos diretores do banco e, posteriormente, ao conselho de administração. Essa versão recebida pelos conselheiros não continha o trecho sobre os empréstimos à SMP&B. Ele apontou a atual presidente do Rural, Kátia Rabelo, e dois vice-presidentes da instituição, Ayana Tenório e José Roberto Salgado, como responsáveis pelo esforço do Rural em esconder as irregularidades. "Tive de assinar o relatório sem o trecho da SMP&B porque fui ameaçado de demissão", afirmou. Para ele, havia a intenção do banco de conseguir privilégios junto ao governo com o repasse de dinheiro ao PT.