Título: Dinheiro de operações vai ao exterior, diz ACM Neto
Autor: Catherine Vieira
Fonte: Valor Econômico, 09/12/2005, Política, p. A7
Os técnicos da CPI dos Correios fizeram rastreamentos adicionais nas operações com recursos de fundos de pensão e constataram que, após transitar por corretoras, bancos e investidores, parte do dinheiro supostamente desviado foi enviada para o exterior, por meio de fundos de investimento estrangeiros. O sub-relator de fundos de pensão da CPI, deputado Antônio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA), diz que esse é um indício que reforça a suspeita de que realmente havia um esquema de desvio de recursos dos fundos de pensão. "Se o dinheiro sempre acaba no exterior, é por que tem alguém querendo esconder algo", disse o deputado, que não citou valores, datas e personagens envolvidos nas remessas. Para ACM Neto, fecha-se a cadeia que comprova a prática de desvios. De uma lado, fundos de pensão fazem operações com derivativos e títulos públicos, em que perdem sistematicamente. De outro lado, sempre os mesmos investidores - muitos ligados ao PT, segundo suspeita a CPI - saem ganhando. Depois de transitar pelo mercado, em operações típicas de lavagem de dinheiro, os recursos vão para o exterior. As apurações mostram ainda que os fundos que tiram o dinheiro do país são geridos por instituições ligadas a dirigentes do PT. Ontem, a CPI recebeu um CD-room da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) com códigos de investidores que ganharam sistematicamente em operações com derivativos, nas quais 14 fundos de pensão sempre perdem. Até agora, a CPI só tinha a identificação de pessoas e instituições financeiras ligadas ao PT cujos sigilos já haviam sido quebrados. Análise preliminar dos dados do CD-room mostra que, além de personagens supostamente ligados ao PT, grandes bancos e corretoras com tradição no mercado aparecem na ponta ganhadora. ACM Neto disse que, seguramente, essas instituições financeiras operavam em nome de clientes. Serão necessárias, afirmou o sub-relator, novas quebras de sigilo para descobrir os reais beneficiários dos recursos supostamente desviados. Após o levantamento dos dados, a CPI dos Correios irá concentrar as suas investigações nos 50 conjuntos de operações que causaram maiores prejuízos para os fundos, todos com valores superiores a R$ 2 milhões. ACM Neto rebateu ontem críticas às apurações da CPI feitas por dirigentes de fundos de pensão. Disse que alguns deles estão tentando confundir o público ao afirmar que as fundações de previdência não poderiam ter sofrido perdas nas operações, pois registram superávit atuarial. "A apuração não discute os resultados dos fundos", disse. "O fato de ter havido lucro nos fundos não exclui a hipótese de que, nessas operações em investigação, ocorreram perdas para o fundo." Alguns dirigentes de fundos de pensão sustentaram, nos últimos dias, que as operações sob suspeitas foram feitas por administradores de fundos exclusivos. "A gestão dos recursos cabe, em última instância, aos dirigentes dos fundos de pensão", disse ACM Neto. "Se eles dizem que a responsabilidade é dos administradores dos fundos exclusivos, que apontem os responsáveis. Mas não descarto a hipótese de descobrirmos que, nessas operações com fundos exclusivos, as ordens de compra e venda tenham partido de dirigentes de fundos de pensão." O deputado negou que tenha sido o responsável pelo vazamento dos dados preliminares das apurações, que eram protegidos por sigilo. Dirigentes de fundos de pensão dizem que tiveram a honra atacada por acusações genéricas. "Tomei o cuidado de apresentar as conclusões preliminares em uma sessão secreta da CPI", disse. "Outros parlamentares tiveram acesso aos dados." O deputado disse que não se opõe à realização de trabalhos paralelos de análise das operações, por empresas de consultoria contratadas pelas fundações. "Mas o trabalho independente está sendo sendo feito pela CPI ", afirmou o sub-relator. ACM Neto disse que a metodologia aplicada pela CPI é de conhecimento público - e foi montada com a participação de funcionários públicos cedidos por órgãos como o Banco Central, Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e Secretaria de Previdência Complementar (SPC). A assessoria de imprensa de ACM Neto comunicou, no início da noite, que o deputado irá examinar as declarações do presidente da Petros, Wagner Pinheiro, para tomar atitudes judiciais, no caso de ficar constatada calúnia em entrevista concedida ontem pelo dirigente. A assessoria disse ainda que, ao contrário do afirmado por Pinheiro, a CPI dos Correios não usou dados da Andima como parâmetro para identificar compras de títulos públicos com valor acima dos valores de mercado. ACM Neto acusou ontem o governo de agir propositalmente para que não ocorresse a convocação extraordinária do Congresso, numa tentativa de esfriar as apurações das CPIs.