Título: BC contra-ataca especulador e puxa dólar a R$ 2,2250
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 09/12/2005, Finanças, p. C1
Câmbio Bancos locais reduzem posições vendidas, mas fundos estrangeiros ainda desafiam autoridade
O dólar subiu ontem 1,36%, para R$ 2,2250. Em dois dias, deu um salto de 2,2%. Os bancos, que encerraram novembro carregando posições vendidas de US$ 3,42 bilhões, intensificaram ontem a redução dessas operações. O motivo é a percepção pelo mercado de que o Banco Central quer elevar a cotação do dólar e, com isso, desmontar as arbitragens especulativas que ameaçam derrubar o preço para R$ 2,00. Essa intenção do BC ficou clara a partir de dois fatos. O primeiro foi a revelação de que, para um fluxo cambial positivo em apenas US$ 2,8 bilhões, o BC adquiriu dólares diretamente do mercado no mês passado no montante de US$ 4,5 bilhões. Em uma mera política de recomposição de reservas cambiais - única justificativa oficialmente admitida para as intervenções do BC - se compra fluxo e não posições vendidas. Os bancos locais entenderam a mensagem do BC e a cumprem à risca. Os especuladores estrangeiros, não: estão aumentando as apostas contra o dólar e a favor do real, mais especificamente a favor da taxa Selic. Está em curso um ataque especulativo às avessas. A cotação do dólar avançou nos dois últimos dias porque, mesmo com os bancos nacionais absorvendo moeda para diminuir posições vendidas, o BC não aliviou as suas atuações. Ontem, já com o dólar em alta de 1%, ele vendeu 10,9 mil contratos de swaps reversos no valor de US$ 519,7 milhões. E, às 15h43, desfechou leilão de compra no segmento à vista. Adquiriu moeda por preço de R$ 2,2170. Apesar do leilão ter tido caráter mais simbólico do que efetivo - aceitou apenas três propostas, já que os bancos não tiram dólares para repassar a ele, preferindo absorvê-los para a zeragem de posições vendidas - a cotação disparou em seguida. Se não fosse intenção do BC puxar o dólar para cima e, dessa forma, dissuadir os especuladores externos, ele não precisaria ter feito nenhuma intervenção ontem. Só as compras feitas pelos próprios bancos para cobrir vendas futuras já garantiriam um dia de alta, embora mais modesta. O que deve estar assustando o BC, cogitam os analistas, é o impressionante crescimento das operações conhecidas como NDF (sigla para "Non-Deliverable Forward"), os contratos futuros de balcão fechados fora do país, por meio dos quais fundos ficam vendidos em dólar e comprados em real. Pelas estimativas dos operadores, o volume de negócios em NDF já encosta em US$ 75 bilhões. Há um mês, o estoque era de US$ 65 bilhões. Em setembro, não passavam de US$ 50 bilhões. Não há ingresso físico desses dólares no país. A operação pode ou não merecer hedge compensativo no mercado futuro de dólar da BM&F. Mas, para que o especulador obtenha o resultado pretendido - juro real de 13% -, a cotação do dólar no Brasil precisa continuar caindo, tanto à vista quanto no futuro. O BC não pode deixar que o dólar afunde muito mais. Uma apreciação cambial muito forte, além dos limites, traz ganhos inflacionários marginais desprezíveis, desproporcionais ao impacto desestabilizador produzido sobretudo na atividade agrícola e no investimento produtivo. O fechamento das sete unidades da Bunge Fertilizantes parece ter acendido uma luz vermelha no BC. Ao comprar posições vendidas dos bancos, o BC está admitindo que o dólar vem caindo não por causa do crescimento das exportações e do investimento direto estrangeiro, supostamente decorrente da melhora dos "fundamentos brasileiros". Na verdade, pelos dados oficiais, o fluxo cambial - a medida exata do que entrou e saiu do país - está positivo em apenas US$ 16,05 bilhões no acumulado do ano, para NDFs de US$ 75 bilhões. É a corrida especulativa a favor do real e contra o Brasil - que muitos operadores apelidaram de "muvuca especulativa" - que vem fazendo o dólar naufragar. Ao contrário dos ataques anteriores, comandados por meia dúzia de grandes instituições, desta vez são milhares de "hedge funds" que apostam no Brasil sem nem saber direito onde fica o país. Sabem o essencial: que o juro é o maior do mundo e que o governo é ultraconservador. De janeiro até ontem, a moeda desvalorizou-se 16,16%. O BC insistirá hoje em suas armas ortodoxas de contra-ataque. Mesmo com o dólar em alta, irá oferecer em leilão aos bancos mais 12,5 mil contratos de swaps invertidos, no valor de US$ 600 milhões.