Título: Varig terá que pagar US$ 78,8 milhões
Autor: Cláudia Schüffner e Janaina Vilella
Fonte: Valor Econômico, 14/12/2005, Empresas &, p. B4

Aviação Acerto de dívidas com companhias leasing na próxima semana faz parte de acordo com Justiça americana

Nelson Tanure terá que percorrer um longo caminho para assumir o controle da Varig. O primeiro grande teste será no dia 19, quando os credores nacionais e estrangeiros terão que aprovar em assembléia o plano de recuperação a ser apresentado por Tanure. O segundo será dia 21, em Nova York, quando a Varig terá que desembolsar US$ 78,8 milhões para quitar pendências junto às companhias de leasing americanas. O plano de recuperação, qualquer que seja ele, terá que ter 100% de aprovação da classes 1 (trabalhadores) e 2 (com garantias e representados pelo Aerus, fundo de pensão dos funcionários da Varig) de credores e por pelo menos 30% dos credores agrupados na classe 3. Essa última reúne desde as empresas estatais, como Infraero e BR Distribuidora, até empresas internacionais de leasing. A aprovação da classe 3 pode ser a mais dura batalha a ser vencida por Tanure, já que mesmo que o governo oriente as estatais a votar a favor da proposta, isso não será suficiente para atingir o quórum mínimo de 30%. Isto porque a dívida total da aérea com os credores da classe 3 soma R$ 1,68 bilhão. As estatais, Infraero e BR Distribuidora têm a receber R$ 375,45 milhões , o que representa 22% do total, portanto menos de 30%. Desde que manifestou interesse pela Varig, Tanure tem mostrado intenção de fazer uma renegociação total desses créditos, convertendo grande parte deles em ações da própria Varig. O fechamento do negócio com a Docas Investimento S.A, empresa de Tanure, na madrugada de segunda-feira, além de surpreender os grandes credores da Varig ainda criou um problema potencial com a TAP e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O banco estatal emprestou US$ 41,3 milhões para a aérea portuguesa comprar as subsidiárias VarigLog (logística) e VEM (manutenção). E apesar de o diretor de Investimentos da Docas, Paulo Marinho, ter informado que pretende cancelar a venda das subsidiárias, o negócio é irreversível desde que a TAP não desista. Mesmo controlando a Varig "mãe" - uma empresa que deve R$ 7 bilhões - Tanure terá que pagar pelas subsidiárias o valor informado em sua proposta, que era de US$ 139 milhões. Pelo rito normal do contrato, a TAP tem o direito de ser informada sobre o valor das propostas concorrentes, o que aconteceu na sexta-feira, com prazo até o dia 19 para dizer se cobre ou desiste do negócio. Se a TAP desistir, Tanure terá que pagar à vista, até 5 de janeiro, US$ 74,5 milhões aos portugueses, que por sua vez terão que quitar imediatamente o empréstimo com o BNDES. Segundo o Valor apurou, Tanure pretendia transferir a titularidade do empréstimo do BNDES à AeroLB/TAP para sua companhia. Mas essa possibilidade foi descartada ontem pelo presidente do BNDES, Guido Mantega. Este informou que o empréstimo concedido pelo banco para a Aero-LB não pode ser transferido para a Docas Investimentos. A razão é porque a empresa de Tanure não pode obter financiamento do BNDES para investir na Varig porque existem débitos junto à instituição. "Ele (Tanure) ainda não deu nenhum passo que envolvesse o BNDES. O acordo envolve ele e a Fundação Ruben Berta", disse Mantega, depois de participar de um seminário em São Paulo. "Os dois terços que foram financiados pelo BNDES terão que ser pagos pela TAP. Se as empresas forem vendidas para outro grupo, a TAP terá de fazer um pré-pagamento para o BNDES", afirmou Mantega. Segundo o presidente da Varig, Marcelo Bottini, a Fundação Ruben Berta (FRB) levou em consideração na hora de optar pela proposta de Docas o valor maior da oferta e o fato de se tratar de uma empresa brasileira. "Tem o valor substancialmente maior do que o oferecido pela TAP no início, é uma empresa brasileira. Isso tudo pesa, mas, basicamente, do ponto de vista financeiro o que contou foi o valor´, afirmou. No dia 21, em Nova York, a Varig terá que pagar dívidas relativas ao arrendamento de todas as aeronaves da companhia não pagas desde o início da recuperação judicial, em junho. A companhia já depositou numa conta vinculada US$ 62 milhões em novembro, mas ainda restam débitos de US$ 78,8 milhões - US$ 37,5 relativos à diferença que ficou faltando ser depositada na última reunião em Nova York, em 09 de novembro, e outros US$ 41,3 milhões do custo semanal com o arrendamento das aeronaves. Uma fonte ligada a Tanure afirmou que dificilmente o novo gestor da aérea brasileira irá divulgar um novo plano, devendo fazer apenas alguns ajustes na proposta que já vem sendo negociada com os credores. Ela prevê a troca de parte das dívidas por participações acionárias em quatro Fundos de Investimentos e Participações (FIP). Bottini, disse acreditar que o plano desenhado por sua equipe "não deverá ser descartado e sim, sofrer algumas modificações, tendo em vista os interesses do novo gestor". Na tentativa de ganhar tempo para avaliar os planos em discussão, os credores não compareceram ontem à assembléia que estava marcada, o que levou a Deloitte, nova administradora judicial da Varig, a adiar a reunião para o dia 19. "Com a mudança do controle, sabíamos que hoje (ontem) não seria possível aprovar o plano. Agora, temos que saber com ele (Tanure) como será a participação dos credores em seu plano", disse o presidente do Aerus, Odilon Junqueira. O sócio-diretor da consultoria Deloitte, Luiz Alberto Fiore, explicou que, juridicamente, os credores da Varig não têm poder de veto na compra da Varig (mãe). A única maneira que eles têm para contestar a nova gestão seria recusando o plano que será apresentado na próxima assembléia, o que levaria à Justiça a decretar a falência da empresa. A Varig está protegida de ações falimentares até o dia 8 de janeiro.