Título: Dividido, Copom corta Selic a 18%
Autor: Alex Ribeiro e Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 15/12/2005, Finanças, p. C1

Decepção Monetária Por seis votos a dois, BC decide manter ritmo de baixa em 0,5 ponto percentual

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu ontem em 0,5 ponto percentual a taxa básica de juros da economia, de 18,5% para 18% ao ano, sem viés. A surpresa foi o placar da decisão: seis diretores do BC votaram por um corte de 0,5 ponto percentual, enquanto dois votaram por uma redução de 0,75 ponto. O diretor de Fiscalização do BC, Paulo Sérgio Cavalheiro, não participou da reunião, pois se encontra em licença médica. Desde setembro de 2004 não havia uma decisão do Copom que não fosse consensual. Naquela oportunidade, três membros votaram por uma alta de 0,5 ponto percentual na taxa, enquanto cinco membros defenderam um aumento de 0,25 ponto. Após a reunião, que durou 3h16, o Copom distribuiu um breve comunicado: "Dando prosseguimento ao processo de flexibilização da política monetária iniciado na reunião de setembro de 2005, o Copom decidiu reduzir a taxa Selic para 18% ao ano, sem viés, por seis votos a favor e 2 votos pela redução da taxa Selic em 0,75 p.p." A divisão do placar só aumenta a expectativa com relação à ata do Copom, que será divulgada na semana que vem. Em setembro de 2004, o documento explicou porque diretores votaram por uma alta maior de juros - na época, esse diretores achavam que uma alta mais forte de juros daria uma idéia mais precisa do movimento da taxa de juros necessário para fazer a inflação convergir para a meta. Em novembro, o Copom descreveu, em sua ata, um quadro favorável para a convergência da inflação para a meta de 2006, fixada em 4,5%. Mas mostrou sua preocupação com o elevado IPCA registrado em outubro, de 0,75%, que ficou muito acima do esperado. Também manifestou preocupação com os elevados núcleos de inflação. Embora a sua previsão formal fosse de que o Copom não cederia em sua intransigência monetária, preservando em meio ponto o tamanho do corte da Selic, o consultor Miguel Daoud, da Global Financial Advisor, diz que estava torcendo por uma decisão mais arrojada. A confirmação do ultraconservadorismo provocará um enorme desânimo não só no setor produtivo, mas no próprio mercado financeiro, que se dedicou nos últimos dias a antecipar uma decisão mais corajosa. "O BC deu razão às palavras do ministro Furlan", afirmou Daoud, referindo-se às declarações do ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, sobre os efeitos desanimadores da polícia econômica ortodoxa. Principalmente o mercado futuro de juros deve hoje elevar as projeções de CDI e tornar a curva futura de juros menos descendente por causa da Selic de 18%. Esse pregão vinha precificando a oportunidade de o BC já iniciar em dezembro uma trajetória mais acentuada de queda do juro primário. Hoje, os contratos devem se ajustar à inflexibidade com deslocamentos para cima. Para os analistas, o BC está perdendo a oportunidade de deslanchar um crescimento econômico mais vigoroso em 2006. A impressão é de que o Copom não ampliará a flexibilização monetária enquanto o governo não decidir por um aumento na meta de superávit primário. Para Daoud, a precaução do BC deriva da hipótese de que o governo cederá à tentação de gastar mais em ano eleitoral, visando a reeleição do presidente Lula. O BC já antevê pressões inflacionárias por conta do reajuste do salário mínimo e da folha de pagamento dos servidores públicos. Para o diretor do Modal Asset, Alexandre Póvoa, que via plenas condições para uma redução imediata de 0,75 ponto, a autoridade monetária pode estar cautelosa em função do fato de que o canal de transmissão dos efeitos da política monetária para a economia torna-se muito mais fluído e célere quando o viés é de baixa. Quando é de alta, os agentes econômicos criam ardis destinados a impor resistência ao desaquecimento dos negócios visado pelo aperto. Mas quando é de baixa, há um impulso psicológico favorável ao crescimento que acaba magnificando os cortes.