Título: Efeito do corte sobre crédito é nulo, diz estudo
Autor: Janes Rocha
Fonte: Valor Econômico, 15/12/2005, Finanças, p. C2

A queda da taxa básica de juros, a Selic, mesmo que superior ao 0,5 ponto determinado ontem pelo Comitê de Política Monetária (Copom), tem impacto quase nulo no custo do crédito bancário. A diferença entre o custo do dinheiro para os bancos - do qual a Selic é o principal parâmetro - e o que eles cobram do tomador final (spread) é tão grande que uma queda dessa magnitude se dilui facilmente, conforme um estudo realizado pela Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). No estudo, assinado pelo vice-presidente Miguel José Ribeiro de Oliveira, são feitas três simulações do impacto da queda da taxa Selic sobre as principais linhas de financiamento de pessoas físicas e jurídicas, a partir das taxas médias praticadas pelas instituições financeiras identificadas em pesquisas realizadas mensalmente pela Anefac. Com a queda de apenas meio ponto, com a Selic caindo para 18% ao ano e supondo-se que os bancos repassassem essa diferença integralmente, a taxa média de juros cobrada para pessoas físicas cairia de 7,63% ao mês para 7,59%, ou seja, apenas 0,59% de redução. O impacto sobre as linhas de crédito de pessoas jurídicas é igualmente inexpressivo: a taxa média, de 4,44% ao mês, cairia para 4,4%. Se o Banco Central fosse mais "ousado" e diminuísse a Selic em 0,75 ponto percentual, para 17,75% ao ano, a diferença das taxas médias cobradas das pessoas físicas é de apenas 0,79%, de 7,63% para 7,57% ao mês. Para pessoas jurídicas, a redução é um pouquinho maior, de 1,35% (de 4,44% ao mês para 4,38% ao mês). Se o Copom reduzisse os juros generosamente, em 1,5 ponto percentual, o custo para pessoas físicas baixaria de 7,63% para 7,55%, se o repasse para o spread fosse integral. Para empresas, a diminuição seria de 4,44% para 4,36% ao mês. Para se ter uma idéia melhor do que significam essas reduções, Oliveira simula vários financiamentos. Um empréstimo pessoal no valor de R$ 1 mil, com seis meses para pagamento, à taxa média atual de 5,72% ao mês, custaria ao tomador R$ 201,58 por mês, em um total de R$ 1.209,48. Na hipótese de corte de 1,5 ponto na Selic e repasse total pelos bancos para o custo do empréstimo pessoal, na nova taxa, de 5,64% ao mês, o tomador do mesmo empréstimo pagaria seis prestações de R$ 201,07, num total de R$ 1.206,42. Economia: R$ 3,06 no custo total. No relatório elaborado para divulgação da pesquisa, Oliveira afirma que "existe um deslocamento muito grande entre a taxa Selic e as taxas cobradas ao consumidor que, na média da pessoa física, atingem 141,66% ao ano provocando uma variação de mais de 600% entre as duas pontas. Em algumas financeiras em linhas de empréstimo pessoal, estas taxas chegam a atingir mais de 1.200% ao ano". No entanto, Oliveira frisa que a queda da Selic é fundamental, independente do impacto imediato sobre o crédito. "A redução da Selic é importante do ponto de vista psicológico, como sinalização positiva para os empresários, como estímulo a novos investimentos" afirmou.