Título: País colhe os resultados do que está sendo feito desde o governo FHC, diz Amadeo
Autor: Chico Santos
Fonte: Valor Econômico, 04/01/2006, Especial, p. A10
Valor: Apesar dos êxitos nas áreas fiscal, externa e no combate à inflação, passado um ano de crescimento razoável (4,9%), o país vai fechar 2005 com um desempenho na casa dos 2%. Como explicar? Edward Amadeo: Eu acho que é uma combinação de duas coisas: uma certa lentidão em tudo que não se refira à política monetária, ou seja, a parte fiscal deixou de aproveitar essa recuperação forte da economia em 2004 para fazer um superávit primário maior. Este ano, que fez, gerou a polêmica que gerou. Então, nem o fiscal e nem a parte estrutural de abertura da economia andaram. Toda a parte de reforma trabalhista, aprofundamento da previdenciária e assim por diante, tudo isso deixou a desejar. Essa é a primeira parte: Tudo ficou na mão da política monetária. Em relação à política monetária, o que acho é que temos uma combinação de um governo sobre o qual havia muita dúvida quanto à sua postura em relação a ela e de falta de autonomia formal do Banco Central. Termina que temos um BC que precisa a cada dia provar seu compromisso com a meta de inflação. Junta tudo isso com o que eu acho uma filosofia muito dura de política monetária, com a qual, em princípio, eu concordo, e temos então essa combinação de juros muito altos com um crescimento um pouco menor.
Valor: O BC pode ter exagerado neste ano? Amadeo: Quando eu tenho um presidente da República sobre o qual havia dúvidas de que ele iria fazer uma política econômica como fez e, justamente por não ter autonomia, na minha opinião o BC opera sempre com dois a três pontos percentuais de juros acima do que faria em outras circunstâncias. Eu acho que politicamente é perfeitamente compreensível que o Lula (presidente Luiz Inácio Lula da Silva) não tivesse mantido o Armínio (Fraga) na presidência do BC, mas acredito que esses dois a três pontos estariam hoje no bolso se o Armínio tivesse continuado.
Valor: É viável um BC independente em um contexto no qual as necessidades são sempre muito prementes e a pressão política por mudanças sempre muito forte? Amadeo: Essas coisas não funcionam dentro de um laboratório. Você está em uma sociedade complexa, em que as forças estão sempre agindo e você não pode atuar como se estivesse em um laboratório. Agora, acho que o Brasil, aos poucos, tem que encarar essa discussão sobre as premências que você está falando, porque nos últimos 20 anos a gente só tem aumentado o gasto público, principalmente em políticas sociais. Cada governo que entra só aumenta isso. De tal forma que a gente está atendendo as premências no curto prazo, mas deixando a economia cada vez mais em situação difícil para crescer. Você taxa o setor privado, diminui a capacidade dele investir, arrecada e não investe também. Então, quem investe?
Valor: É um beco sem saída? Amadeo: Não é dizer que esse caminho não tem também vantagens. Acho que comparada à situação argentina, a brasileira é muito melhor. Estamos falando da política fiscal, isso e aquilo, mas a verdade é que desde 1999 a política fiscal no Brasil é muito boa. Podia ser melhor? Podia, mas é muito boa. Ter um BC comprometido com inflação baixa, ao longo dos anos vai fazer diferença. Não tenho nenhuma dúvida que o Brasil está na direção certa.
Valor: A taxa de poupança tem ficado de três a quatro pontos percentuais acima da taxa de investimento. Isso indica que a taxa de investimento caminha no médio prazo para o mesmo nível (cerca de 24%)? Amadeo: Pode ser. Eu acho que o setor público ajudou nisso. O aumento do superávit primário favoreceu o aumento da poupança doméstica. Eu não acredito que as famílias, em um ambiente de normalidade e de crescimento, vão manter esse nível de poupança. Ao contrário, vão se endividar, porque o Brasil se endivida pouco, e ao se endividarem, vão estar diminuindo sua taxa de poupança.
Valor: Considerando os aspectos positivos e negativos que o sr. relacionou, quais as perspectivas para 2006 e para mais adiante? Amadeo: É o tal negócio, do jeito que a gente fala e vendo a taxa de juros real alta como ela é, parece que estamos condenados a crescer pouco e ao insucesso. Eu não acredito nisso. Acredito que estamos com problemas porque existe ainda uma certa dificuldade de se criar um consenso em torno de algumas idéias básicas, por exemplo, como tornar o gasto social mais eficaz. O gasto social, para atender o pobre, é mais do que justificado no Brasil e em qualquer lugar do mundo. O problema é quando você tem políticas sociais para todas as classes.
Valor: O sr. está falando das deduções do Imposto de Renda? Amadeo: Deduções do IR, universidade federal completamente gratuita, um sistema previdenciário que não estimula as pessoas a poupar... Dito isso, a minha convicção é de que o que foi feito desde o início da década de 1990, no governo Fernando Henrique Cardoso e agora, no governo Lula, caminha na boa direção. Acho que a gente pode trabalhar com uma taxa de juros real de 5% a 6% daqui a quatro ou cinco anos.
Valor: Considerando a oportunidade desse IGP-M excepcionalmente baixo deste ano, será que é o momento de arriscar alguma renegociação do indexador das tarifas públicas para evitar pressão em outros momentos? Amadeo: Acho que não. Agora nós vamos colher os frutos da política de estabilização. Contratos novos? Aí você pode querer que seja feito pelo IPCA, como acho que vai ser feito na energia. Agora, mexer em contrato antigo, a essa altura do campeonato, já tendo pago o preço maior? Eu não mexeria.
Valor: Quais são os riscos com o calendário eleitoral? Amadeo: Acho que 2006 tem tudo para ser um bom ano. Eleição é um caso à parte. Deixe-me fazer de conta que as eleições vão ser civilizadas e que não vai haver grandes surpresas. Quando digo que não vamos ter grandes surpresas é que iremos ficar entre um candidato que é o presidente Lula e um candidato forte do PSDB.
Valor: Pagar ao FMI de uma vez foi uma medida correta do ponto de vista econômico ou foi mais uma bravata política? Amadeo: Acho que foi uma medida correta. Temos um nível de reservas muito bom, a solvência externa só melhorou, corrente de comércio só melhorou... Para que serve um acordo com o FMI? Serve para quando você não consegue lidar com uma situação de crise de balanço de pagamentos. (CS)