Título: Para Sabóia, reeleição levará à política expansionista e dará impulso ao PIB
Autor: Chico Santos
Fonte: Valor Econômico, 04/01/2006, Especial, p. A10

Valor: O ano de 2005 foi marcado pela consolidação do ajuste externo, a manutenção de um elevado superávit primário e por um esforço de convergência da inflação para o centro da meta. Paralelamente, ou em conseqüência, o país desabou de um crescimento razoável em 2004 para um resultado pífio. O que aconteceu? João Sabóia: A visão dos economistas do Banco Central é de que o Brasil não pode crescer mais do que um determinado nível, e esse nível eles estabeleceram em 3,5%. Em 2004 tivemos um crescimento bom, um crescimento que você não tinha no país havia muito tempo, e aconteceu que o governo ficou preocupado com os reflexos que ele poderia ter na inflação. Na verdade, a única coisa que o país tem como meta é uma meta de inflação. Todos os resultados são decorrentes dessa meta. Então, como você ficou em 2004 com um crescimento além do que as autoridades admitiam como sendo razoável para o Brasil, eles resolveram desacelerar. Eu não acredito que cheguemos nem a 2,5% em 2005. E é muito frustrante.

Valor: O BC pecou por excesso? Sabóia: O nosso problema é que a inflação brasileira tem uma parcela importante que está indexada, os chamados preços administrados. E utilizar taxa de juros elevada para conter a inflação em uma economia na qual boa parte dos preços é indexada é um erro. Nos últimos anos não tem havido excesso de demanda. Esse tipo de política de juros altos se aplica a uma economia extremamente aquecida e com uma pressão de demanda muito grande. O Brasil tem crescido, em grande parte, graças ao setor externo. Especialmente no caso da política monetária, houve um grande exagero. Eu acho que essa política condena o futuro do país.

Valor: Muitos economistas liberais consideram que o superávit primário deveria ser maior e que a falta de recursos para investimentos decorre, na verdade, de gastos excessivos, principalmente com benefícios sociais. Sabóia: Esse superávit é elevadíssimo e mesmo assim não dá conta. Por quê? Porque os juros são muito altos. O Copom é tão conservador que vai contra o que o próprio mercado espera. Você produz um superávit primário enorme, acima das metas, e mesmo assim não dá para pagar os juros da dívida.

Valor: Há quem diga que há um custo PT que eleva os juros em até três pontos percentuais... Sabóia: O pessoal que hoje faz a política fiscal e a política monetária é totalmente confiável do ponto de vista do mercado. O homem que é presidente do BC é um banqueiro internacional, uma pessoa absolutamente confiável ao sistema financeiro. As pessoas que estão nos cargos importantes da política monetária são pessoas de confiança. No começo havia uma desconfiança grande, mas ela foi superada na medida em que ficou claro que aquilo que o governo estava fazendo no começo não era apenas uma estratégia de governabilidade. Eu não entendo porque haveria esse adicional de juros.

Valor: Qual o nível de superávit primário compatível com a retomada do crescimento? Sabóia: O primário depende da taxa de juros. Se ela for elevada no nível de hoje é preciso um primário muito alto para manter a relação dívida-PIB, que é a grande questão. Se você consegue baixar os juros para o nível de até 8%, baixar pelo menos uns cinco pontos percentuais na taxa de juros real, isso já trará um benefício enorme para o país. Eu não entendo porque não se testa isso. Não adianta especular qual o superávit primário compatível. Essa história de dizer: vamos zerar o superávit nominal e com isso criar condições para baixar a taxa de juros, a proposta que o Delfim (deputado federal Delfim Netto, do PMDB-SP) andou fazendo, é um tiro no escuro.

Valor: É possível deixar a taxa de inflação escorregar um pouco, como a Argentina está fazendo? Sabóia: Eu acho que é preciso estar de olho na taxa de inflação. Eu acho, inclusive, que a taxa de inflação, daqui para a frente, vai ser beneficiada porque uma grande parte do índice inflacionário estava associada ao IGP. Como esse índice baixou, uma parte dos preços administrados vai ter um bom comportamento no ano que vem.

Valor: O sr. acha que se deveria aproveitar esse IGP favorável para buscar uma renegociação dos contratos de serviços públicos, colocando um indexador mais alinhado com os preços ao consumidor? Sabóia: Essa questão é complicada. O IGP é um índice bom do ponto de vista do investidor externo, porque ele é muito ligado à variação do câmbio. Então, para eles, o interesse é manter o IGP.

Valor: Seria melhor não mexer para não causar sobressaltos? Sabóia: Do ponto e de vista deles, acho que sim. Embora eles possam estar ganhando menos agora, é uma questão conjuntural, pois o câmbio está muito valorizado.

Valor: Qual a perspectiva que o sr. tem para o crescimento econômico em 2006? E para mais adiante? Sabóia: Eu acho que 2007 é uma grande incógnita porque vai depender de quem vai assumir o governo. Em relação a 2006, acho que será um ano mais favorável por razões estritamente políticas. É um ano de eleição, no qual o governo vai tentar obter bons resultados para se reeleger. Por ser um ano eleitoral e pela pressão que está em cima do atual governo para que ele faça algum crescimento, tudo leva a crer que teremos uma política expansionista. Acho que, pelo menos, chegaremos a alguma coisa em torno de 3,5%, eventualmente até mais do que isso.

Valor: Então, o sr. acha que em um eventual segundo mandato o presidente Lula tende a ter uma política econômica idêntica à atual? Sabóia: Acho que sim. Eles estão convencidos de que estão fazendo tudo direitinho e isso (a trava deste ano) foi uma questão pontual.

Valor: A quitação da conta com o FMI foi um gesto positivo do ponto de vista econômico ou foi mais uma bravata política? Sabóia: Acho positivo. Como estamos acumulando reservas e o dólar está barato, acho correto quitar. Isso tem efeitos positivos na área internacional.

Valor: Caso o governo pense em uma guinada na política econômica de longo prazo, que recomendações o sr. faria? Sabóia: Acho que é preciso ter uma meta de crescimento. O controle da inflação é importante, mas não podemos ter uma só meta para o país. O BC americano tem como prioridade cuidar da moeda, mas ele faz isso levando em conta o crescimento. (CS)