Título: Governistas do PMDB trabalham para adiar prévias
Autor: Raymundo Costa
Fonte: Valor Econômico, 12/12/2005, Política, p. A8

A ala governista do PMDB está montando uma operação de guerra para tentar adiar as prévias para a escolha do candidato do partido à Presidência, de 5 para 31 de março de 2006. Na prática, o adiamento pode significar o fim da candidatura do ex-governador do Rio Anthony Garotinho, o nome mais bem avaliado da sigla nas pesquisas de opinião. Em princípio, a reunião da Comissão Executiva Nacional está prevista para quarta-feira, na hipótese de os governistas conseguirem as assinaturas necessária para a convocação. A data de 5 de março foi escolhida de comum acordo entre o presidente do PMDB, Michel Temer, Garotinho e o governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, também pré-candidato à indicação. Isso porque os candidatos a outros cargos - ou seja, que não disputam a reeleição - precisam deixar funções executivas seis meses antes da eleição, caso de Rigotto. Garotinho, caso perdesse as prévias, teria tempo para articular a desincompatibilização da governadora Rosinha Matheus, que disputaria o Senado, enquanto ele próprio concorreria a um mandato de deputado federal pelo PMDB. A prévia no dia 31 de março atrapalha os planos de Garotinho e Rigotto. O governador e Rosinha, para ser candidatos, precisariam estar desincompatibilizados já no dia 1º de abril. Pelas regras da prévia é prevista a realização de um segundo turno no caso de nenhum dos candidatos obter a maioria dos votos. É certo que a apuração também levaria pelo menos dois dias. O universo de votantes é de cerca de 14 mil eleitores, espalhados por todos os municípios do país. "Das duas uma: (os governistas) ou não querem o Garotinho e o Rigotto ou não querem a candidatura própria", dizia Michel Temer (SP) no fim de semana. O deputado Geddel Vieira Lima (BA), outro defensor da prévia e da candidatura própria, também suspeita do que está por trás da manobra governista: "Eles deveriam ter a coragem de assumir de vez que não querem a candidatura própria, mas sim entregar o partido para o governo". Geddel diz que recorrerá ao Conselho Político se a Executiva Nacional adiar as prévias. É pouco provável. A ala oposicionista do PMDB provavelmente tentará uma composição com os governistas, se perceber que vai perder, como tudo indica, na reunião da Executiva Nacional. A ala que apóia o governo avalia que já dispõe de nove dos 16 votos da Executiva Nacional. Na realidade, a sorte das prévias está nas mãos do ex-governador Orestes Quércia, que deve ser o fiel da balança. De início, Quércia se comprometeu com a realização das prévias, mas depois passou a considerar que talvez não fosse uma boa idéia uma definição tanto tempo antes das eleições. Ao mesmo tempo, argumenta que adiar ou cancelar a consulta poderia parecer uma decisão contra Garotinho. Emissários dos governistas procuraram Quércia no fim de semana, tentando convencê-lo a mudar de posição. O deputado Jader Barbalho (PA), outro cacique influente do partido, também passou a apoiar as prévias: "Podemos fazer isso por consenso ou por bom senso", disse. A operação montada pelos governistas prevê até o recurso à ajuda dos ministros do partido no governo, inclusive na votação da Executiva, se isso se tornar necessário. A ala governista defende a candidatura do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Nelson Jobim, a ser definida mais adiante. Na hipótese de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se recuperar nas pesquisas, Jobim seria opção para a vice. A sigla poderia também ficar sem candidato, no caso de ser mantida a verticalização das eleições.