Título: Sem rastros do consumo
Autor: Tahan, Lilian; Mader, Helena
Fonte: Correio Braziliense, 09/05/2010, Cidades, p. 27
Dificilmente, o furto de equipamentos hospitalares passa despercebido. Em geral, a falta dos aparelhos é logo notada e a perda quase nunca é mantida em segredo. O mesmo não ocorre com os remédios. Não estão protegidas do desvio cápsulas que podem custar uma fortuna e salvar vidas ¿ um exemplo é o Metalyse 40 mg, usado por enfartados, no valor de R$ 1 mil a caixa. Só para ter uma ideia, a farmácia do HRT recebeu apenas no mês de abril um volume de 217.134 remédios. Vinculada à Secretaria de Saúde, a Farmácia Central abastece os hospitais a cada 30 dias. As unidades regionais dividem insumos e remédios entre os centros de saúde. Uma vez no estoque do hospital, o remédio é encaminhado a vários setores, como pronto-socorro, enfermarias e centros cirúrgicos. É a partir do repasse às unidades internas dos hospitais que se perde o rastro do consumo. ¿Saiu da farmácia, foi para uma enfermaria, por exemplo, é dado como consumido¿, explica a chefe do setor de farmácia do Hospital Regional da Asa Sul (Hras), Eva Fontes. Ela atribui muito do que se perde ao descontrole. ¿Há profissionais, até mesmo em função da falta crônica de remédios, acostumados a fazer superestocagem. Para evitar que o setor dele fique descoberto, o servidor pede quantidade maior do que vai utilizar. Mas, às vezes, o paciente melhora ou morre e aquele remédio não é devolvido.¿ Soma-se à cultura da superestocagem outra prática comum nos hospitais, onde é difícil restringir o acesso dos funcionários ¿ em toda a rede, há 30 mil servidores públicos. É costume fazer da farmácia do hospital a dispensa da própria casa. ¿Infelizmente, isso ocorre especialmente com os remédios para dor. Dificilmente o servidor vai ao posto e pega uma receita. Se ele precisa do medicamento, se vale do acesso facilitado¿, relata o diretor do Hospital do Gama, Robson Umbelino Brito. O desperdício consome em torno de 30% do volume de medicamentos enviados para os pacientes do sistema público. Em toda a rede, são gastos anualmente R$ 232,1 milhões com a compra de remédios. Significa dizer que os extravios consomem pelo menos R$ 69 milhões em um ano. A estimativa confirmada por gestores da rede é feita com base na economia gerada a partir da experiência-piloto dos hospitais que passaram a fazer um controle rígido, por meio da informatização e da dose individualizada(1). As unidades que testaram o sistema dão conta da economia. É o caso dos hospitais regionais do Gama, de Samambaia e do HBDF. Por dois anos, o HRG teve acesso ao programa de computador para a sistematização da dose individualizada. ¿No período, notamos uma redução no consumo de remédios da ordem de um terço¿, registrou Maria José de Castro, chefe do Setor de Farmácia no Hospital do Gama. O problema é que o contrato era emergencial e foi encerrado, e os servidores aposentaram a rotina de controle que havia apresentado bom resultado. (LT e HM)