Título: Rejeitada, Docas desiste de comprar a Varig
Autor: Janaina Vilella
Fonte: Valor Econômico, 06/01/2006, Empresas &, p. B3

Aviação Companhia de Nelson Tanure promete brigar na Justiça por direito de ficar com subsidiárias da aérea

A companhia Docas Investimentos, de Nelson Tanure, apresentou ontem a desistência de comprar o controle da Varig por US$ 112 milhões, mas manteve a proposta pelas subsidiárias VarigLog (logística) e VEM (manutenção). O presidente da Varig, Marcelo Bottini, afirmou ontem que a companhia só vai levar em conta as propostas da portuguesa TAP e do fundo de investimentos americano Matlin Patterson. O assessor da presidência da Docas, Demetrius Guiot, reagiu. Disse que a empresa vai lutar na Justiça pelo direito a comprar as duas empresas. A desistência da Docas foi anunciada durante assembléia do Colégio Deliberante da Fundação Ruben Berta (FRB). "Não adianta tentar fazer negócio com quem não quer negociar. Mas mantemos o interesse nas subsidiárias. Vamos bater, não vamos apanhar, porque quem bate não sabe apanhar", disse Guiot. O acordo para a compra de 25% do capital votante da Varig havia sido negociado, em dezembro, com a FRB, mas foi suspenso por uma decisão da Justiça do Rio, que condicionou a operação à aprovação dos credores, já que a companhia está em recuperação. Em 19 de dezembro, os credores vetaram a venda para Docas. Ontem, no início da assembléia, realizada a portas fechadas, Tanure teria dito aos conselheiros que o seu interesse pela Varig nasceu em 2003, segundo Graziella Baggio, presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas. Na época, Tanure teria sido procurado por Bottini e pelos consultores econômicos da associação TGV (Trabalhadores do Grupo Varig), Paulo Rabello de Castro e Élnio Borges. Eles teriam pedido uma proposta de compra. Bottini explicou que a proposta de Docas de US$ 139 milhões pelas duas subsidiárias só foi aceita inicialmente porque entre 10 e 12 de dezembro Tanure havia negociado a compra do controle da Varig com a holding FRB-Participações. No momento em que a Justiça afastou Docas do controle, o negócio mudou. Docas foi desqualificada pela Varig por não cumprir uma série de exigências, como, por exemplo, o detalhamento da origem do dinheiro a ser usado na operação. Guiot disse que a desistência foi feita com base na cláusula resolutiva nº 8.4, do contrato de compra da Varig, que permite a rescisão do contrato, caso o plano de recuperação judicial da empresa, aprovado pelos credores, não fosse o defendido pela empresa de Tanure. Bottini admitiu, conforme o Valor antecipou, que seria mais rentável para a Varig desmembrar a venda das subsidiárias. A VarigLog iria para o fundo americano por US$ 55 milhões. E a estatal portuguesa de aviação ficaria com a VEM por US$ 24 milhões. Adicionalmente, a TAP receberia US$ 38 milhões - referentes ao valor pago inicialmente pela estatal portuguesa pela VarigLog - mais multa contratual de 20% pelo cancelamento da compra da subsidiária, o que somaria US$ 45,6 milhões. Segundo Bottini, essa venda em separado renderia aos cofres da Varig um adicional de US$ 9,4 milhões. "Se essa operação realmente for concretizada seria o melhor dos mundos para a Varig", disse. Ele também afirmou que a companhia vai honrar a dívida de US$ 56 milhões com as empresas de leasing, que vence no dia 12. Disse que a empresa já tem US$ 29 milhões garantidos apenas com fluxo de caixa. A aérea está contando, também, com o pagamento da antecipação de recebíveis - empréstimo lastreado nos créditos originados com a venda de passagens de cartão de crédito Visa - pela TAP e por alguns bancos, como o português Efisa, para conseguir o restante dos recursos. O Valor apurou que na segunda-feira, Bottini se reuniu com o vice-presidente da TAP, Michael Conolly, para negociar o pagamento dos recebíveis. Tudo indica, segundo fonte próxima à negociação, que o dinheiro será depositado até o fim de semana. Fontes ligadas à Varig preferem não confirmar a participação do presidente da empresa no encontro. A Varig ainda prevê o pagamento de outros US$ 30 milhões referentes a recursos que foram pagos antecipadamente à Iata (Associação Internacional de Transporte Aéreo). Ontem, 96% dos integrantes do Colégio Deliberante da FRB aprovaram o plano de recuperação da Varig, já homologado pela Justiça do Rio. Outros 84% deram sinal verde para a venda das subsidiárias VarigLog e VEM. E 89% dos funcionários presentes a reunião votaram contra a venda do controle para Tanure.