Título: PFL prevê vitória de candidato 'realizador'
Autor: Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 16/12/2005, Política, p. A12

Sucessão Pesquisa encomendada pelo partido mostra que eleitor despreza viés ideológico na definição de voto

A ideologia não será fundamental na escolha do eleitorado em 2006. Pesquisas qualitativas balizam a oposição a definir o perfil do candidato à presidência capaz de vencer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva numa eventual reeleição e mostram que a busca será por um político realizador, preparado, com histórico relevante na vida pública e, sobretudo, "cumpridor de promessas". Essas foram algumas das conclusões da sondagem encomendada pelo PFL ao professor Antônio Lavareda, do Instituto MCI. "Tanto faz se é de esquerda ou de direita", responderam alguns dos entrevistados. A pesquisa foi feita em novembro, com 15 grupos de 12 pessoas, especialmente das classes C e D. Foram entrevistados eleitores das cidades de São Paulo, Recife, Chapecó, Juiz de Fora e Ilhéus, cujos votos pró-Lula ou anti-Lula ainda não estão consolidados. O presidente nacional do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC), conclui, com base na sondagem realizada, que a população nutre um forte sentimento de frustração pela não realização de mudanças significativas num governo de esquerda. "A ideologia está fora das prioridades do eleitorado", disse. Lula, segundo ele, ainda é o único candidato competitivo da esquerda, mas "não será reeleito". A convicção se explicaria, entre outros fatores, pelos altos índices de rejeição de Lula. No Sul do país, disse Bornhausen, a rejeição já chega a 60%. Ainda assim, o pefelista acha que Lula será, sim, candidato. "Se ele não for, viveremos uma eleição como a de 1989", disse Bornhausen. Em 89, na primeira eleição direta pós-ditadura, disputaram a presidência 21 candidatos. Se em 2002 o eleitor queria a mudança e optou por um político que se identificasse com a população, agora a demanda mudou. Após a avalanche de denúncias de corrupção que permearam o governo Lula, parece ter ficado a sensação, entre os eleitores, que a mudança não foi concretizada. Sucesso, credibilidade e confiança são palavras-chave para definir o candidato. Bornhausen afirmou ainda que, para as classes mais baixas, o não cumprimento de promessas é seriamente observado. O PFL pretende explorar isso na campanha. Estão gravadas em fitas as falas de Lula em debates e entrevistas, material bruto para futuros programas eleitorais. Há dois pontos fundamentais: a geração de 10 milhões de empregos e a promessa de dobrar o poder de compra do salário mínimo até o final do mandato. Outra conclusão formulada a partir da pesquisa é que a opinião da classe média sobre Lula é irreversível. Já a classe mais baixa, segundo definição de Bornhausen, "é mais resistente". O senador não considera que os programas sociais, como a distribuição do Bolsa Família a 10 milhões de famílias, sejam suficientes para assegurar a reeleição de Lula. Se em 2002 a população procurou um político "igual", identificado com o povo, agora quer alguém que se destaque na vida política, que tenha realizações administrativas bem sucedidas a mostrar, que seja "firme e corajoso". O povo cobra, ainda, que esse político tenha presença constante no país. Em um dos itens analisados, que diz respeito às viagens de Lula ao exterior, os eleitores consideram que o presidente passou pouco tempo no país. Bornhausen garante que o prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, na avaliação do partido, reúne todas essas características. O presidente do PFL reiterou que a candidatura própria continua a ser a prioridade do partido, apesar de salientar que a aliança com o PSDB é absolutamente natural. "Uma coligação tem que ser auto-explicável. Essa dificuldade nós não temos. Ninguém contestará", analisou. O partido pretende lançar candidato a governador em pelo menos 10 Estados. Se tiver candidato próprio à presidência , esse número aumentará, informou. O PFL, conforme avaliação do presidente da legenda, encerra o ano mais denso, com identidade mais clara. Em 2002, segundo ele, o PFL viveu uma espécie de eleição fantasma, por não ter tido candidato nacional. O pefelista considera que a realidade política brasileira será significativamente alterada em 2007, devido à cláusula de barreira. A previsão dos partidos é que somente sete legendas conseguirão cumprir a cláusula mínima de 5% dos votos em pelo menos 9 estados para alcançar representação na Câmara. Ao encerrar o ano, o pefelista fez ainda um balanço dos três anos de governo Lula: "Incompetência somada à corrupção", definiu.