Título: Morales promete retomar refinarias da Petrobras
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Fonte: Valor Econômico, 16/12/2005, Especial, p. A16

Bolívia Favorito à Presidência discutiu com Lula recompra dos ativos

Num dos últimos comícios antes das eleições gerais de domingo na Bolívia, o candidato esquerdista Evo Morales afirmou que, se for eleito presidente, pretende retomar para Estado boliviano o controle das duas refinarias da Petrobras no país. O plano seria readquirir as empresas, mas não está claro se a proposta seria compulsória. Essa ameaça deve reduzir ainda mais a confiança de investidores externos na Bolívia, num momento em que os investimentos no país estão em forte queda. "Vamos recuperar as refinarias que o Estado Brasileiro controla", afirmou Morales num comício na cidade de Santa Cruz, região produtora de gás. "Se ganharmos as eleições, o companheiro Lula tem de nos devolver as refinarias que nos correspondem." O líder indígena e favorito nas eleições presidenciais de domingo discutiu o assunto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante sua visita a Brasília em novembro. O assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, confirmou ontem que Lula e Morales discutiram a possibilidade de o governo boliviano "recomprar" as refinarias, mas procurou minimizas o caso. Garcia, que embarca no sábado para acompanhar as eleições bolivianas ao lado do novo presidente do Mercosul, Carlos Alvarez, afirmou ontem que o Brasil não está preocupado com as declarações de Morales. Segundo ele, são declarações típicas de campanha. "Quando houver um governo constituído na Bolívia, vamos conversar sobre o tema." Garcia quer evitar polêmicas que possam deixar transparecer que o governo brasileiro prefere o candidato A ou o candidato B. "O povo boliviano tem o direito de expressar livremente sua vontade. A eleição, por si só, é um fato extremamente positivo." A Petrobras também evitou polemizar com Morales. O presidente da empresa, José Sergio Gabrielli, informou por meio de sua assessoria que não comenta a política interna da Bolívia e que aguarda o resultado das eleições no domingo. A Petrobras controla na Bolívia as refinarias Gualberto Villarroel, em Cochabamba, e Guillermo Elder Bell, em Santa Cruz. Juntas elas têm capacidade de processar até 60 mil barris de petróleo por dia. A empresa é o maior investidor externo na Bolívia e sua produção (incluindo o negócio principal de extração e distribuição de gás natural) responde por mais de 15% do PIB boliviano. Segundo Alvaro García Linera, candidato a vice de Morales, o objetivo é comprar as refinarias em condições especiais a serem negociadas com a Petrobras. Com voto obrigatório, são chamados a votar 3,7 milhões de eleitores na Bolívia. Além de votar para presidente, eles escolherão 27 senadores, 130 deputados e, pela primeira vez na história do país, os governadores de nove Províncias. Segundo pesquisas de intenção de voto, Morales deve ficar à frente na votação, mas não conseguirá maioria absoluta para se eleger no primeiro turno. O líder socialista tem de 5 a 10 pontos de vantagem sobre o conservador Jorge Quiroga, mas as pesquisas na Bolívia costumam diferir do resultado final. Se nenhum dos oito candidatos presidenciais obtiver 51% dos votos, o sucessor de Eduardo Rodríguez será escolhido pelo Congresso. Nas últimas cinco eleições presidenciais, o Congresso por duas vezes não elegeu o candidato que recebeu a maioria dos votos populares. A posse é em 22 de janeiro.