Título: Empresas têm de se ajustar ao dólar baixo
Autor: Ivo Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 09/01/2006, Especial, p. A12
Conjuntura Jorge Gerdau, do grupo Gerdau, diz que moeda valorizada viciou economia e desafio é baixar custos
O empresário Jorge Gerdau, que comanda o maior complexo de produção de aços longos das Américas, está um otimista cauteloso com os rumos da economia neste ano. Ele prevê uma expansão do PIB maior que em 2005, mas não vê crescimento sustentado no longo prazo. Para ele, o problema é estrutural - de baixa formação de poupança pública -, que se arrasta há 20 anos. "Isso não permite que se cresça, na média, mais que 2%." Seu maior desafio neste ano, diz, é ajustar os custos de produção ao real sobrevalorizado. Ele prevê que, na média, o dólar ficará em R$ 2,20 a R$ 2,30. "O ruim é que o dólar subiu muito e a economia se ajustou a um câmbio mais caro. Quando ela está aquecida e o câmbio favorável à exportação, cuida-se mais da produção e menos dos custos. Fica mais fácil subir preços do que baixar os custos", afirma. Para o ano de eleições presidenciais, Gerdau espera "uma disputa bem acirrada", por causa da crise política em 2005. "Será um debate violento e não deverá ser muito agradável", diz. Abaixo, íntegra da entrevista concedida ao Valor.
Valor: Qual a sua avaliação da economia brasileira hoje? Jorge Gerdau: A redução do crescimento econômico foi indiscutivelmente um impacto inesperado no curto prazo, mas conseqüência da realidade vivida pelo país. Há 20 anos, a poupança pública brasileira é zero ou até negativa em alguns anos. Isso significa que o setor público praticamente não investe. Consequentemente, a totalidade dos 40% do PIB da carga fiscal é consumida em despesas, sobrando muito pouco ou quase nada para investimentos em infra-estrutura. Em análises do do Banco Mundial, o país que tiver uma poupança sobre o PIB abaixo de 20% não tem condições de crescer mais de 2%. Continuamos neste ritmo nos últimos 20 anos. Para reforçar bem essa tese, a China tem uma poupança de mais de 40% sobre o PIB; por isso, seguidamente, tem um ritmo permanente de altos investimentos, que leva a taxas de expansão de 9% a 10% ao ano. Enquanto não levarmos isso a sério - e com essa carga tributária alta -, vamos ficar condenado a continuar com taxas de crescimento baixas.
Valor: Quer dizer que o país continua em uma linha equivocada? Gerdau: No primeiro ano de governo Lula tivemos zero de crescimento; depois 5%, e no ano passado 2,5%. Na média dos três anos, estamos igual aos últimos 20 anos.
Valor: O senhor acha que é consequência da atual política de juros? Gerdau: A questão dos juros é uma consequência. Como sempre andamos no limite do superávit primário; se adicionarmos os juros vamos ver que estamos praticamente trabalhando em equilíbrio e muitas vezes até com saldo negativo. Embora esse governo tenha feito um trabalho extremamente importante para melhorar essa questão, vemos que para manter suas contas equilibradas continua se endividando. Pagou a dívida mais barata, em moeda estrangeira (do FMI), mas continua captando em reais. Então, com toda a pressão do sistema financeiro, só se consegue evitar a inflação com uma taxa de juros altos. É um círculo vicioso: o juro alto é um limitador decisivo do crescimento, mas ele é um remédio necessário para o combate da inflação.
Valor: O senhor tem, então, a mesma opinião de outros empresários, de que o BC errou na dose da política monetária? Gerdau: Eu não tenho tanta certeza disso. Veja que mesmo com toda a dose cavalar de juros, foi somente nos últimos meses que realmente houve um arrefecimento da inflação, o que justificou o início da queda. O problema, como eu disse, é que a questão estrutural brasileira continua com falhas. Temos de ampliar a poupança, e como não dá para aumentar a carga tributária para chegar a isso, só há um remédio: eficiência da gestão da máquina pública para gerar recursos na Previdência e em outras áreas.
Valor: O juro alto afetou o desempenho do grupo em 2005? Gerdau: Sim, porque retraiu o nosso mercado e toda a economia, com esses juros, andou de lado, principalmente a construção civil, um dos maiores consumidores de nosso aço. Outro fator é o dólar baixo, que limitou a capacidade de produção e exportação em várias cadeias setoriais.
Valor: Então, como o senhor analisa a questão do câmbio, com um dólar que chegou a R$ 2,17? Gerdau: É uma questão que o país tem de cuidar muito. Como o juro alto, ferramenta para evitar a inflação, já é um limitador da expansão da economia, o dólar, que no começo do governo Lula foi fator decisivo no crescimento das exportações e geração de empregos, embora tenhamos bons preços de commodities e uma exportação global com números ainda bons, existem muitos setores que estão cortando postos de trabalho de uma forma preocupante, como calçados, móveis e cadeia de autopeças. Como faz muita exportação direta, o grupo Gerdau, de forma geral, conseguiu se equilibrar.
Valor: Que nível de câmbio o senhor vê como adequado? Gerdau: O ruim é que o dólar subiu muito e a economia se ajustou a um câmbio mais caro. Quando a economia está aquecida e o dólar estimulando a exportação, cuida-se mais da produção e menos dos custos. Com a valorização do real, fica mais fácil subir os preços do que cortar custos. A tarefa de baixar custos em dólar é muito difícil, porque as estruturas se viciam. O ajustamento da economia ao novo nível do câmbio é um sofrimento enorme. Muitas vezes impossível.
Valor: Mas, no planejamento do grupo, com que taxa de câmbio vocês estão trabalhando este ano? Gerdau: Adotamos um dólar quase estável - entre R$ 2,20 e R$ 2,30 na média. Estamos trabalhando de forma muito conservadora, para justamente adaptar o grupo a uma mentalidade de dólar baixo, criar uma cultura. É difícil, porque temos de trabalhar em todos os pontos da cadeia de custos, na busca de maior eficiência e produtividade. Há custos que não conseguimos gerenciar, como os de energia, que no Brasil subiram até 50%.
Valor: Qual política de juros o BC vai praticar neste ano? Gerdau: Será o ritmo escadinha, muito cuidadoso, de corte de 0,5 ou 0,75 ponto percentual a cada reunião do Copom. E a cada queda vai analisar a reação do mercado.
Valor: A inflação já é um problema já resolvido no Brasil? Gerdau: Acho que está bem equacionada. Antigamente, todos os preços da economia flutuam em função do dólar. Hoje, podemos dizer que as flutuações da maioria deles se comportam pela economia. Gerenciados apenas pelo fator de concorrência e preços internos, sem olhar a flutuação do dólar, seja para baixo ou para cima. Com exceção de produtos muito vinculados à exportação.
Valor: Qual sua avaliação sobre a fixação da última TJLP, taxa adotada nos empréstimos do BNDES? Gerdau: Poderia ter baixado mais. O importante é o início do processo de redução, mesmo que não tenha chegado aos níveis que desejamos. esperamos novo corte nos próximos meses, se a inflação continuar no atual patamar.
Valor: O próprio BNDES considerava que havia espaço para ir a 8,25%, mas o BC fixou em 9%. Isso pode inibir a tomada de recursos para investimentos? Gerdau: Eu diria que a 8,25% criaria mais estímulo na decisão de investimento, pois o juro real aplicado pelo banco, olhando o cenário mundial, continua alto. Normalmente, a imprensa considera que tomar dinheiro do BNDES é um favor político, mas, na realidade, é uma taxa em níveis de mercado ou até mais cara que a praticada mundialmente. Eu não tinha uma expectativa de redução mais forte, pois se o BC não tem sido ousado nas políticas monetária e financeira, não seria diferente nesse caso.
Valor: O senhor acredita que o PIB do país neste ano vai crescer 5%, como o governo tem prometido? Gerdau: Como em 2005 foi baixo, provavelmente será alto neste ano. Faz muitos anos que a economia internacional nunca esteve tão favorável como está no momento. O Brasil, teoricamente, sempre crescia 50% a mais que os EUA. Ou seja, se eles atingem 4%, deveríamos crescer 6%, mas não temos conseguido fazer isso. A prosperidade das economias americana, asiática e européia nunca teve, na história mundial, ao mesmo tempo, números tão expressivos. Pelo que se prevê para a economia americana, não é difícil que o Brasil atinja alta de 5%. Mas, comparado a níveis mundiais seria um número apenas normal, nada extraordinário.
Valor: Como vão se comportar os setores econômicos neste ano? Gerdau: Acho que o setor primário, de commodities, vai continuar bem e o siderúrgico vai se manter razoavelmente. O Brasil está bem diversificado e de forma geral continuará firme. A construção, nos últimos 60 dias, com liberação de um pouco de recursos do governo, começou a dar bons sinais e indica uma arrancada melhor para 2006. Valor: O que o senhor espera da disputa eleitoral neste ano? Gerdau: Será uma disputa acirrada por causa da crise política. Será um debate violento e não deverá ser muito agradável. Ainda bem que a economia conseguiu se afastar da dependência política. Houve um pouco mais de maturação do país, o que dá mais conforto.
Valor: Os nomes de candidatos no momento são os do presidente Lula, do prefeito de São Paulo, José Serra, e do governador paulista, Geraldo Alckmin? O senhor vê uma candidatura alternativa? Gerdau: Às vezes aparece o do Aécio Neves (governador de Minas), mas acho que deverá ficar polarizo entre esses três.
Valor: O senhor teme um nome populista? Gerdau: Toda tendência populista existente na América Latina não deixa de ser ilusionista. Precisamos nos cuidar para não perder os esforços já feitos em vários países. Não é bom para a América o que ocorre - na Bolívia, Venezuela e outros países. As correções básicas que têm de fazer para se enquadrar em níveis de países de padrão mundial são postergadas. Assim, nunca conseguimos terminar nossas caminhadas.
Valor: O senhor não parece muito otimista para 2006? Gerdau: Estou otimista sim. Acho que vai ser um ano bom, melhor que o de 2005, no capo econômico. O processo eleitoral sempre ativa um pouco a economia. Mas não será nada exuberante, porque as correções básicas da estrutura do país não foram feitas.