Título: Varig perde prazo e fundo retira oferta
Autor: Janaina Vilella
Fonte: Valor Econômico, 09/01/2006, Empresas &, p. B2
Aviação Segundo Matlin Patterson, proposta de compra de subsidiária era válida somente até quinta-feira
Voltaram à estaca zero as negociações entre o fundo americano Matlin Patterson e a Varig para a compra das subsidiárias VarigLog (logística e transporte de cargas) e VEM (manutenção). Segundo uma fonte envolvida na negociação, venceu na quinta-feira o prazo dado pelos americanos para que a companhia aérea informasse oficialmente ao fundo a proposta vencedora. "A proposta da Matlin não está mais em vigor. A Varig não atendeu aos prazos estabelecidos durante o processo de negociação. O fundo cogita, inclusive, deixar definitivamente o negócio", disse um executivo ligado ao Matlin. "Agora, a Varig tem de buscar um novo comprador ou tentar negociar uma nova proposta com o Matlin." Procurada pelo Valor, a Varig informou desconhecer a decisão. A TAP já havia comprado as duas empresas pelo preço mínimo de US$ 62 milhões, mas ainda existia a possibilidade de outros investidores apresentarem propostas num leilão organizado pela Varig. Além do Matlin, a companhia Docas Investimentos, de Nelson Tanure, também demonstrou interesse pelas subsidiárias. A proposta de Docas foi desclassificada pela Varig, uma vez que não cumpriu sete das oito exigências estabelecidas pela companhia aérea, como o detalhamento da origem dos recursos para adquirir as empresas. Caso a venda seja fechada pelo preço mínimo já pago pela TAP, a Varig deixa de aumentar seu fôlego financeiro, no momento em que necessita de fluxo de caixa para garantir a manutenção de sua frota de aeronaves e dar continuidade ao seu processo de recuperação judicial. A decisão do Matlin ocorreu no mesmo dia (quinta-feira) em que a Varig entregou aos juízes que acompanham o caso uma petição, em que ratifica a desclassificação de Docas do processo e considera vencedora a proposta do Matlin de compra da VarigLog por US$ 55 milhões. No documento, a Varig especifica que a Aero-LB - sociedade de propósito específico criada pela TAP em parceria com o magnata luso-chinês Stanley Ho e os brasileiros Alberto Camões e Álvaro Gonçalves - receberá US$ 38 milhões, valor já pago pela Aero-LB para adquirir a VarigLog. À Varig caberia um montante de US$ 9,4 milhões - diferença entre o valor que a TAP pagou pela subsidiária (US$ 38 milhões) mais uma multa de rescisão de contrato de 20% para os portugueses (US$ 7,6 milhões). O presidente da Varig, Marcelo Bottini, admitiu, conforme o Valor antecipou, que seria mais rentável para a Varig desmembrar a venda das subsidiárias. "Seria o melhor dos mundos", disse depois de participar da reunião do Colégio Deliberante da Fundação Ruben Berta (FRB), na terça-feira. Mas como o valor correspondente ao prêmio que a estatal portuguesa teria direito está sendo questionado na Justiça por partes envolvidas na negociação, a Varig solicitou à Justiça que esta parcela ficasse retida em juízo até a decisão final do juiz. "Vamos analisar a petição e decidir se o prêmio é valido, ou seja, se a TAP tem direito ou não aos US$ 7,6 milhões", afirmou Márcia Cunha, juíza da 2ª Vara Empresarial, no Rio. Como existem processos correndo na Justiça relacionados à venda das duas empresas, a Varig também solicitou na mesma petição que o juiz dê um parecer final sobre a proposta escolhida pela Varig. Mesmo que a operação seja cancelada por causa da desistência do Matlin, a Justiça ainda pode questionar a venda das subsidiárias para a TAP, considerando que o valor pago ficou bem abaixo do avaliado pela consultoria Delloite, administradora judicial da Varig. Corre no mercado que a avaliação por estimativa feita pela consultoria teria chegado a US$ 500 milhões. A Varig corre contra o tempo para honrar uma dívida de US$ 56 milhões com empresas de leasing, que vence na quinta-feira. Segundo o presidente da empresa, a aérea já dispõe de US$ 29 milhões, garantidos apenas com fluxo de caixa. O restante deverá ser obtido com o pagamento da antecipação de recebíveis - empréstimo lastreado nos créditos originados com a venda de passagens pagas com cartão de crédito Visa - pela TAP, de cerca de US$ 30 milhões. Ou, ainda, com a devolução de US$ 30 milhões que foram pagos antecipadamente à Iata (Associação Internacional de Transporte Aéreo), uma câmara de compensação internacional.