Título: Euforia depende de indicadores dos EUA
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 09/01/2006, Finanças, p. C2

Após valorizar-se 5,3% no mês passado, o dólar caiu 1,85% na primeira semana do ano. O que mudou de dezembro para cá foi o cenário internacional. O Banco Central não aliviou em nada as pressões de compra responsáveis pela alta contabilizada em dezembro. Mas não conseguiu manter a moeda próxima de R$ 2,33. O dólar fechou sexta-feira a R$ 2,2820. A procura internacional por oportunidades de investimento rentáveis e de risco suportável acelerou-se depois que o Federal Reserve (Fed) indicou a proximidade do fim do ciclo de aperto monetário iniciado em junho de 2004. Mas como o Fed advertiu que as próximas decisões sobre juros dependerão dos indicadores econômicos que forem surgindo, os mercados passaram a ficar muito voláteis, reagindo ao informe do momento. Na sexta-feira, a divulgação do número de postos de trabalho criados nos EUA em dezembro - 108 mil ante expectativa de 200 mil - reforçou a percepção de que o Fed não fará mais do que uma alta do juro. E a euforia retornou aos mercados. O risco-país tombou para 282 pontos-base, ampliando para 7,2% a queda acumulada nos primeiros quatro pregões do ano. Por causa da dependência dos mercados locais às decisões tomadas lá fora, os indicadores americanos são hoje mais importantes para a definição de tendências do que os brasileiros. O principal índice a sair nessa semana será o relativo à inflação no atacado dos EUA. Na sexta-feira será divulgado o PPI referente a dezembro. Os analistas esperam que o índice cheio suba da deflação de 0,7% registrada em novembro para inflação de 0,4% em dezembro. Espera-se um núcleo de 0,2%, ante 0,1% no mês anterior. Se for confirmado esse prognóstico de 0,2% para o núcleo, a farra da liquidez continuará. Ficam em segundo plano os dados sobre inflação e produção industrial domésticas. Amanhã, o IBGE divulga a produção relativa a novembro e, na quinta-feira, o IPCA de dezembro. Os economistas não apostam em números capazes de estimular o Banco Central a intensificar o desaperto monetário.

BC compra dólares 'virtuais'

O superávit cambial (saldo de todos os dólares que entraram e saíram do país) foi de US$ 18,819 bilhões em 2005 graças aos ingressos resultantes da atividade exportadora. Então, o dólar acumulou baixa de 12,40% no ano passado devido ao crescimento das exportações? Nada disso. O Banco Central comprou US$ 21,5 bilhões e o Tesouro outros US$ 14 bilhões em 2005. Somadas, as aquisições do governo superaram em US$ 16,68 bilhões o superávit registrado pela balança cambial. O governo comprou uma montanha de dólares "virtuais" e mesmo assim a cotação despencou.

Inflação no atacado monopoliza atenções

Se fossem os recursos de exportações os responsáveis pela desvalorização da moeda americana, as compras oficiais excedentes colocariam a cotação perto dos R$ 3,00. Se o dólar iniciou 2005 a R$ 2,6540 e fechou a R$ 2,3250 e se o governo comprou US$ 35,5 bilhões para uma sobra total de US$ 18,819 bilhões, quem derrubou o dólar então? A resposta deve ser buscada nos US$ 70 bilhões mantidos em contratos futuros de dólar (venda de moeda americana e compra de real) fechados no mercado de balcão internacional. Esses contratos buscam a rentabilidade oferecida pela Selic, derrubam o dólar futuro no mercado interno e, por extensão, a cotação à vista sem que haja ingresso físico de moeda. A chave para a restauração do equilíbrio cambial é monetária.

Hora do 'fogo amicíssimo'

O Banco Central está cada vez mais isolado. A sua política monetária ultra-ortodoxa passou a ser alvo até do "fogo amicíssimo". Não se trata mais de ataques desferidos por críticos contumazes, alojados em escolas de pensamento antagônicas. Nem de farpas lançadas por dissidentes instalados no próprio governo. Mesmo antes de o Copom ter iniciado em sua reunião de setembro o ciclo de tímido afrouxamento monetário, o pai do sistema brasileiro de metas de inflação, o ex-diretor de Política Econômica do BC, Sergio Werlang, já advertia para a necessidade de um desaperto monetário. Outro insuspeito observador da economia brasileira, o ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore aderiu mais recentemente ao coro dos que consideram a atual gestão rigorosa em demasia. Na última semana de dezembro, foi a vez do sucessor de Werlang no BC, o economista Ilan Goldfajn, levantar objeções à dose empregada pelo Copom no ano passado. E, na última sexta-feira, a autoridade máxima brasileira do pensamento econômico neoliberal, o professor da PUC-RJ Dionísio Dias Carneiro, após ardorosa defesa do modelo atual, sugeriu, em artigo, a possibilidade de o BC ter se excedido. Como não há mais advogados de peso do fundamentalismo monetarista ora em curso, o isolamento solapa a credibilidade do BC. O que o Copom fará na quarta-feira da semana que vem, dia final do seu primeiro encontro do ano? O histórico das últimas 15 reuniões do Copom não deixa muita dúvida: irá manter, pela quarta reunião em seguida, o ritmo de queda de meio ponto percentual da taxa básica. A Selic baixará de 18% para 17,5%.