Título: Crédito ao consumo atrai mais bancos
Autor: Maria Christina Carvalho
Fonte: Valor Econômico, 19/12/2005, Finanças, p. C1
Estratégia Apesar da inadimplência elevada, retorno é cinco vezes maior que consignado
Os bancos voltaram as baterias para o financiamento ao consumo, antecipando o esperado arrefecimento da demanda por crédito consignado no próximo ano e buscando negócios mais rentáveis. O Santander resolveu reforçar sua financeira, batizada de Olé. O gigante Banco do Brasil (BB) prepara-se para selar acordos com redes regionais de varejo e expandir o financiamento de veículos, inclusive para quem não é cliente do banco, seguindo os rivais. O BB vai buscar acordos com as redes regionais uma vez as grandes do setor já estão comprometidas com outros bancos - a Casas Bahia com o Bradesco; o Pão de Açúcar e Lojas Americanas com o Itaú; e o Ponto Frio com o Unibanco. O Itaú, declaradamente, prefere outras linhas ao crédito consignado. Para o analista do setor financeiro do Pactual, Pedro Guimarães, esses bancos fizeram a escolha certa. "Expandir o crédito consignado não é a melhor estratégia porque, apesar de sua inadimplência ser menor, o retorno é bem menor do que o de outras linhas para pessoas físicas", explicou. Com base nos dados de crédito apurados pelo Banco Central, Guimarães compara: com uma inadimplência de 0,5%, o crédito consignado proporciona um spread líquido (diferença em relação ao custo de captação) de 36,12%. Já o financiamento ao consumo, mesmo com uma inadimplência muito maior, dá retorno quase cinco vezes maior, de 163,24%. O cobiçado financiamento de veículos, com inadimplência baixa graças à garantia do bem, resulta em um spread líquido até inferior ao do consignado, de 33,52%, e ao do crédito para pequenas e médias empresas, de 38,28%. O Banco do Brasil entrou no crédito consignado no início do ano e chegou, em novembro, a R$ 3,565 bilhões em carteira, com a perspectiva de fechar o ano com mais de R$ 4 bilhões. Se o mercado aumentou 76,8% neste ano, para R$ 31 bilhões em outubro, a carteira do BB cresceu quase o dobro, com 12 mil convênios com empresas públicas e privadas, e chegou a pouco mais de 10% do mercado, atingindo inclusive não clientes. "Foi um crescimento extraordinário", disse o presidente do BB, Rossano Maranhão Pinto, em recente palestra na Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec). O vice-presidente de varejo do BB, Antonio Francisco de Lima Neto, ponderou que o aumento do volume da carteira do consignado compensa em parte o spread menor. Observou ainda que essa linha é concedida nas agências, nas próprias máquinas de auto-atendimento, barateando o custo. Já o financiamento ao consumo de bens e veículos tem um custo mais elevado porque é concedido nas lojas e, normalmente, implica em divisão de resultados com os lojistas. "É o modelo de compartilhamento de ganhos", afirmou Maranhão Pinto. Nem sempre o banco olha apenas o resultado quando busca desenvolver uma nova linha de produtos. O financiamento de veículos, por exemplo, uma disputada carteira de R$ 47 bilhões, tem uma margem menor do que as demais linhas mas, sua inadimplência baixa, ajuda a reduzir a perda média das carteiras. O Banco Itaú, disse seu presidente Roberto Setubal a analistas também da Apimec, mudou o mix de ativos nesta década buscando spreads mais atraentes, embora com risco maior. A carteira de pessoas físicas e pequenas e médias empresas cresceu de R$ 14,8 bilhões em dezembro de 2002 para R$ 37 bilhões em setembro; e a de grandes empresas e de títulos e valores mobiliários encolheu de R$ 30 bilhões para R$ 24,5 bilhões. Mas o Itaú não foi contagiado pela febre do consignado, como outros bancos, exatamente porque essa linha oferece retorno baixo. "No mercado, o crédito consignado representa 50% do crédito pessoal. No Itaú, é 15%", informou. Além disso, o Itaú produziu apenas R$ 200 milhões da carteira de R$ 1,6 bilhão de consignado do Itaú; o restante foi foi originada pelo Banco BMG, que fez uma cessão de carteira. De fato, o total de consignado no mercado montava a R$ 31 bilhões em outubro, enquanto o crédito pessoal somava R$ 68,9 bilhões. O Itaú preferiu dedicar-se a outra linha de baixo risco mas com retorno atraente - o financiamento de veículos, acumulando uma carteira de R$ 8 bilhões. Outra aposta forte do banco é o cartão de crédito, negócio que cresceu muito com o aumento da participação na Credicard de 33% para 50% do capital. Itaú e Citigroup compraram em partes iguais a participação do Unibanco na Credicard e ficaram com 50% do capital cada um. O Itaú, que já tinha 13,2% do mercado de cartões, ganhou mais 8,5% e sua carteira atingiu 12,2 milhões de plásticos. Em outra frente de batalha, o Itaú fez parcerias com o Pão de Açúcar e Lojas Americanas para desenvolver o financiamento ao consumo e a oferta de cartões de crédito a seus clientes. O banco construiu a área praticamente do zero, disse o responsável pela área, José Francisco Canepa, após perder a disputa pela compra da Losango e do HiperCard.