Título: Lula quer ministros empenhados na defesa do governo para eleição
Autor: Cristiano Romero
Fonte: Valor Econômico, 20/12/2005, Política, p. A6

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou ontem, na última reunião ministerial de 2005, unidade dos ministros na defesa do Executivo e na divulgação dos números obtidos no governo ao longo dos 36 meses de gestão. Ao término de um ano repleto de brigas internas, e afundado numa crise ética sem precedentes, Lula deixou claro que cabe a ele a palavra final e que todos os ministros devem se empenhar para enfrentar os desafios do processo eleitoral. "Cada ministro deve se apropriar das informações não apenas da sua área, mas do conjunto das ações do Executivo, para fazer o debate político devido. Não há ilhas de excelência isoladas, mas a excelência do conjunto do governo", ressaltou o ministro da coordenação política, Jaques Wagner. Wagner foi escalado para apresentar um resumo da reunião, juntamente com o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes. Segundo ele, Lula não marcou data para definir se será ou não candidato à reeleição. "É uma decisão pessoal. Eu espero que ele seja candidato", ressaltou o ministro da coordenação política. Lula tampouco cobrou uma definição imediata, e pública, dos ministros que planejam se candidatar em outubro. A expectativa é de que pelo menos dez deles - inclusive Wagner - deixem suas pastas para disputar algum cargo eletivo em 2006. Nestes casos, o prazo para desincompatibilização é abril. "Este assunto não estava na agenda, foi uma reunião de balanço. Essas conversas deverão acontecer individualmente, em um momento posterior", destacou Wagner. Apesar disso, a reunião teve indícios claros de preparação para a campanha eleitoral. "Analisando a situação concreta do país, temos, em todas as áreas - desenvolvimento, infra-estrutura, econômica e social - números muito melhores do que os resultados obtidos pela coalizão que nos antecedeu", disse Ciro. Lula reconheceu que mais poderia ter sido feito neste ano, mas destacou que, apesar da crise política vivida nos últimos oito meses, o país continua funcionando. "O governo vem trabalhando, os números da economia estão consolidados - a despeito do resultado negativo do PIB no terceiro trimestre - as instituições estão funcionando. A democracia brasileira está consolidada", declarou o presidente, de acordo com o relato do ministro Jaques Wagner. Coube a Wagner tocar no ponto mais espinhoso do governo neste ano, a crise política. Em sua intervenção, o ministro reconheceu que o governo sofreu ataques intensos nos últimos oito meses, com picos nos meses de junho e julho, mas que, após o momento mais agudo de turbulência, conseguiu voltar a respirar. Elegeu o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) para a presidência da Câmara, começou a reaglutinar a base aliada no Legislativo e acabou aprovando todos os projetos de interesse - à exceção do orçamento, que Wagner espera aprovar, no mais tardar, durante a convocação extraordinária de janeiro. Os ministros garantiram ainda que está sepultada dissidência em torno da política econômica a ser adotada pelo governo em 2006, ano eleitoral. Ciro lembrou que a gestão Lula é marcada pela austeridade fiscal e que ela jamais foi colocada em xeque. "Alguns de nós podem ter ângulos diferentes de análise. Mas todos concordam que esta é a política econômica necessária", resumiu Ciro. Lula repetiu que cabe a ele definir os rumos políticos e econômicos. Wagner assegurou que, em sua intervenção, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, não defendeu, como tem feito ultimamente, o ajuste fiscal de longo prazo. "Palocci falou da evolução do quadro econômico, destacando que o Brasil vai ter um crescimento maior no ano que vem", disse Wagner. Ciro disse que 2006 está mais para 2004 do que para 2005. "O surto inflacionário do final de 2004 foi debelado. Nossas contas externas estão estabilizadas. Temos as melhores condições dos últimos 20 anos". A reunião foi aberta pela chefe da Casa Civil, ministra Dilma Roussef. Em seguida, o ministro Luiz Fernando Furlan falou sobre desenvolvimento; Patrus Ananias sobre a área social; Ciro Gomes sobre infra-estrutura; Márcio Thomaz Bastos sobre segurança pública e combate à corrupção; Roberto Rodrigues sobre a reunião da OMC; Jaques Wagner sobre conjuntura política e Luiz Dulci sobre os movimentos sociais. Lula falou após todos, durante aproximadamente 40 minutos. Seguiram-se os debates entre os ministros e, à noite, estava previsto um jantar de confraternização, incluindo os maridos e esposas, na Granja do Torto.