Título: Palocci rejeita saída eleitoral se deixar governo
Autor: Cristiano Romero
Fonte: Valor Econômico, 20/12/2005, Política, p. A6
Executivo Ministro estuda afastar-se da política e tornar-se um consultor privado após passar pelo ministério
A pouco mais de três meses do prazo para decidir se permanece no governo ou se sai para disputar as eleições de 2006, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, começa a planejar seu futuro. Entre as opções que está analisando, consta a possibilidade de instalar-se definitivamente com a família em Brasília e ganhar a vida como consultor. Outra é coordenar a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O ministro, por ora, não planeja deixar o governo para concorrer a um cargo eletivo. Os cenários montados por Palocci dependem de uma circunstância: a decisão do presidente Lula de alterar ou não o rumo da política econômica. Se o presidente mudar a política, o ministro, segundo apurou o Valor, deixará o governo imediatamente. Até o momento, apesar dos sinais dúbios que o próprio Lula e alguns ministros vêm emitindo, a política econômica não mudou e provavelmente não mudará no ano que vem. As liberações de recursos feitas nos últimos dias, por exemplo, não foram suficientes para colocar em risco o desempenho do governo na área fiscal. O setor público - União, Estados e municípios - fechará 2005 realizando um superávit primário em suas contas superior à meta oficial, de 4,25% do PIB. Possivelmente, a economia de gastos (excetuando-se as despesas com o pagamento dos juros da dívida pública) chegará a 4,7% ou 4,8% do PIB. A realização de um superávit maior que o previsto na meta oficial foi um dos motivos do desgaste sofrido pelo ministro da Fazenda dentro do governo. Alguns ministros, tendo à frente Dilma Roussef, chefe da Casa Civil, passaram a se queixar de Palocci junto ao presidente Lula. Em 2006, a meta oficial do superávit será de 4,25% do PIB, mas, como o governo terá menos tempo para executar o orçamento por causa das regras eleitorais, o resultado deverá ficar novamente acima da meta. Na avaliação da equipe econômica, superávits fiscais maiores abrem espaço para que o Banco Central reduza a taxa de juros de forma mais rápida, o que, por sua vez, estimula a economia a expandir mais. Além de manter o compromisso do governo com a responsabilidade fiscal, o presidente Lula não mexeu, até agora, nos outros dois pilares da política econômica: o regime de câmbio flutuante e o sistema de metas de inflação, ambos executados pelo Banco Central com autonomia. Por essa razão, mesmo consciente de que já não dispõe do apoio irrestrito do presidente da República, Palocci não vê motivos para sair do governo. O ministro acredita que, ao executar uma "gestão responsável" da economia, ele se credenciou para atuar, no futuro, como consultor privado. Seu plano é fazer isso em Brasília. Palocci planeja se afastar da política nos próximos anos. Não se trata de um afastamento definitivo. É por isso que, até o momento, ele não pretende disputar um cargo eletivo em 2006. Sua decisão se deve ao desgaste sofrido nos últimos meses por causa das denúncias envolvendo seu nome e o de ex-assessores na prefeitura de Ribeirão Preto (SP). Se o presidente Lula decidir mudar a política econômica, Palocci antecipará o projeto de se tornar consultor. Segundo fontes ouvidas pelo Valor, o ministro da Fazenda não acredita na possibilidade de Lula dar uma guinada na economia. Nem agora nem no ano que vem. "Até agora, não mudou nada", atesta um assessor do presidente. Existe a possibilidade de Palocci deixar o Ministério da Fazenda e permanecer ao lado de Lula fazendo política. Comenta-se no governo que o presidente pode entregar a ele, em abril, a coordenação-geral da campanha de reeleição. Haveria uma razão pragmática para se apostar nisso. Com a credibilidade adquirida junto a empresários e banqueiros, Palocci teria condições de levantar recursos para financiar a campanha de Lula em 2006. Nesse cenário, ele seria substituído na Fazenda por seu secretário-executivo, Murilo Portugal. Esta seria a forma de assegurar também que, no ano eleitoral, não haverá mudanças na economia. "Lula iria para a campanha da reeleição com o apoio dos mais pobres, que continuam o apoiando, e Palocci, com o das elites", diz um assessor graduado do governo. Desde o início da crise política, que revelou a montagem pelo PT de um esquema irregular de financiamento de campanhas, comenta-se em Brasília que Lula e seu partido terão dificuldades para financiar as disputas eleitorais do ano que vem. A solução para o problema seria envolver Palocci, que contou com a ajuda de vários empresários de peso para permanecer no cargo quando Lula cogitou demiti-lo, diretamente no comando da campanha.