Título: Nem vitoriosos, nem cachorros mortos
Autor: Maria Inês Nassif
Fonte: Valor Econômico, 12/01/2006, Política, p. A6

É um exercício de síntese entender o que, e em que grau, interfere na tomada de decisão do eleitor brasileiro. O abismo que separa os ricos e os pobres do país, e o Estado mais rico da federação dos mais pobres, é o mais forte elemento da realidade eleitoral e induz a processos aparentemente contraditórios, mas cujo movimento dialético alimenta a política nacional. Nas eleições de outubro, elementos interpostos à realidade já conhecida sugerem a necessidade de nova síntese e recomendam cautela a analistas e políticos de plantão: é temerário diplomar vitoriosos a dez meses da eleição e mais discutível ainda atribuir a candidatos uma derrota prévia. A desigualdade do país produziu perfis díspares de eleitores. O eleitorado dos grandes centros urbanos, das camadas médias para cima, é ideológico e/ou partidário. O elemento moral se incorpora a essa opção apenas subsidiariamente. Exemplo é o ex-prefeito Paulo Maluf, cujo fiel eleitor, de direita, relativizou as denúncias de corrupção que rechearam fartamente sua biografia política, contrapondo ao defeito a qualidade de empreendedor. Uma profunda desigualdade intra-regional recomenda que não se considere ideológico todo eleitor dos grandes centros, ou dos Estados ricos. As eleições municipais de 2004 deram farta demonstração de que isso não ocorre nem na megalópole paulista. O eleitor da periferia, em boa parte, reproduz as relações do chefe político com seus agregados, comum nos Estados do Norte e Nordeste. Maluf, quando candidato, estabelecia relações de aparente intimidade com esse eleitor pobre - abraço, disponibilidade para ouvir, promessas. Como prefeito, elegeu obras relativamente baratas, mas eram benefícios tangíveis. A petista Marta Suplicy lidou com duas realidades desse eleitorado: uma parte ligada a movimentos sociais; e outra dependente ao extremo do poder público. No final do governo, quadros do PT ligados à prefeita tinham formado na periferia redutos semelhantes aos grotões malufistas. Nas regiões mais pobres contam ainda os chefes políticos locais. Basta ver os resultados das eleições de 2002. A Bahia, que abriga uma das mais antiga linhagens do coronelismo político, comandada pelo senador Antonio Carlos Magalhães, elegeu 20 deputados para o PFL, quase 20% da bancada federal do partido. O apoio de ACM, já no primeiro turno, somado aos votos do PT (que fez apenas 2 deputados no Estado), deram a Lula 55,27% dos votos válidos baianos. Essa realidade, dominante ainda no Norte e no Nordeste, não é regada apenas pela ação dos velhos coronéis. Tome-se o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), um coronel com "up grade" que desbancou os tradicionais há duas décadas e, com grande habilidade política, aprendeu a manejar os cordões desse poder. Em 2002, o PSDB teve, no Ceará, 31,7% dos votos para deputados federais. Foi o Estado em que o PSDB, proporcionalmente, mais votos teve para a Câmara - em São Paulo a bancada federal tucana obteve 17,7% dos votos válidos. Naquela eleição Jereissati não apoiou o tucano José Serra, que lá obteve apenas 8,5% no primeiro turno. Da diferença entre os votos dados ao PSDB na Câmara, e os destinados a Serra, deduz-se que esse votos não são tucanos, mas "tassianos".

Política social de Lula concorre com a de clientela

Essa realidade pode ser estendida, sem exceção, a todos Estados do Norte e Nordeste. Lá os chefes políticos têm votos seus, descolados dos partidos. Conseguem isso com a cooptação ideológica do eleitor das capitais e das maiores cidades - o líder, não o partido, passa a configurar a opção ideológica - e, no interior e junto à população pobre, alimenta uma relação clientelista com o eleitor. Essa realidade, no entanto, terá a interferência de dados muito novos. Um deles é a extensão dos programas sociais compensatórios do governo Lula. Até por se destinarem à população de baixa renda, acabarão tendo um grande peso no Norte e no Nordeste e concorrerão com a política de clientela tradicional. Isso não é algo estranho à esquerda. Ninguém confessa de público, mas pergunte-se à esquerda das regiões mais pobres do país se nunca fizeram favores diretos ao eleitor pobre. Numa capital de um Estado do Norte, em 2000, por exemplo, um ícone da velha esquerda que coordenava a campanha de um candidato a prefeito andava com dois bolos de dinheiro, um em cada bolso da calça: um, de notas de R$ 5, outro, de R$ 10. Atendia os eleitores lançando mão de um ou outro maço. Argumentava a seu favor que o "hábito" de dar dinheiro a eleitor não era apenas parte da cultura eleitoral do Estado, mas decorrência da miséria generalizada. "Essa nota é a diferença entre morrer ou não de fome". Nas eleições passadas, o ex-governador João Capiberibe foi pego, em campanha ao Senado, comprando um voto por R$ 15. O senador arriscou um passado de esquerda e uma administração progressista exemplar no Amapá. O eleitorado dos grandes centros urbanos, teoricamente ideológico, viu, no mandato de Lula, o seu universo político virar de cabeça para baixo. Os partidos que antes representavam uma opção ideológica relativamente clara se confundiram. O último ano embaralhou as diferenças partidárias. O PT, não apenas por conta do fogo cruzado moral, mas principalmente devido à política econômica de Lula, deixou de ser uma opção natural dos eleitores de esquerda. A sua dissidência que virou partido, o P-SOL, pega a mínima parte desses eleitores, pois na ofensiva antipetista aliou-se à direita parlamentar com o mesmo furor udenista. O PSDB, com dois pré-candidatos paulistas, pode agradar à direita e à esquerda, dependendo de quem apresentar ao eleitor. O discurso "desenvolvimentista" de Serra, que em 2002 representava uma continuidade neoliberal, foi deslocado para a esquerda por uma política econômica igualmente neoliberal do PT. O governador Geraldo Alckmin tem tudo para arrebanhar o eleitorado de direita, órfão ao quadrado: não tem mais Maluf e o PFL, embora tenha aproveitado um interregno na oposição para se constituir no partido de direita por excelência, ainda é movido a lideranças locais. Mas se Alckmin for o candidato, o PSDB deixa de ser opção para os órfãos petistas. Tudo pode acontecer. Não existem vitoriosos por antecipação, nem tampouco cachorros mortos que possam ser jogados para fora do cenário político.