Título: Informalidade e rotatividade são os desafios
Autor: Liliana Lavoratti
Fonte: Valor Econômico, 17/11/2004, Qualidade no Trabalho, p. F1
Assim como ninguém duvida do papel dos investimentos em educação e capacitação profissional para a criação do círculo virtuoso da economia, como ocorreu nos tigres asiáticos, também é consenso que muitas barreiras precisam ser ultrapassadas. Na avaliação do professor de Economia da Unicamp e pesquisador da área do trabalho, Cláudio Dedecca, o perfil da educação no Brasil é desfavorável ao desenvolvimento econômico. Ele afirma que os investimentos feitos na educação e qualificação do trabalhador não têm sido incorporados à base produtiva devido ao baixo desempenho da economia nos últimos vinte anos. Segundo Dedecca, a situação transparece nos indicadores de desemprego mais acentuado entre os mais qualificados e a presença cada vez maior de profissionais altamente qualificados em postos desqualificados. "Isso joga contra o desempenho da economia", sublinha. Por isso, ele acredita que a solução está na mudança da visão sobre o caminho a ser percorrido pela economia brasileira. "Ou entendemos que precisamos crescer a taxas mais elevadas daquelas obtidas nos últimos anos ou não haverá espaço para o desenvolvimento adequado na base produtiva nem na nossa mão-de-obra", afirma o professor da Unicamp. Ele lembra que enquanto a Coréia aumentou a renda per capita média em 9,9% ao ano, nas duas últimas décadas, essa média no Brasil foi de apenas 3,8% no mesmo período. Os pesquisadores acrescentam outros aspectos que devem ser considerados para a formulação de políticas de qualificação do trabalho. O diretor-técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, cita uma dificuldade decorrente da conjuntura atual de desemprego elevado. Trata-se da desqualificação pela ausência de emprego. Segundo as pesquisas, na Grande São Paulo um trabalhador demitido leva, em média, cerca de 50 semanas para encontrar novo posto. "Esse distanciamento muitas vezes é irreversível." A alta rotatividade da mão-de-obra e a informalidade são fatores que também dificultam um salto nos recursos humanos voltado para o incremento da produtividade. Esta é a opinião do pesquisador do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), Armando Castelar. Segundo ele, a reforma trabalhista deve eliminar os incentivos à rotatividade - como o que permite ao trabalhador demitido sacar o FGTS. Outras medidas, como a participação em lucros, devem ser estimuladas, pois incentivam o empregado a permanecer mais tempo na empresa, uma condição para o aumento da produtividade. (L.L.)