Título: Na trilha da excelência
Autor: Liliana Lavoratti
Fonte: Valor Econômico, 17/11/2004, Qualidade no Trabalho, p. F1
Ao lado do capital, da infra-estrutura e da tecnologia, a qualificação dos recursos humanos é estratégica para aumentar a produtividade e a competitividade
Não é só reduzindo juros e a carga tributária, aumentando os investimentos e melhorando a infra-estrutura física que o Brasil vai alcançar maior produtividade de sua economia e, com isso, alavancar a competitividade. Há um outro gargalo que, embora menos lembrado, é considerado tão importante quanto os demais: a qualificação dos recursos humanos. Essa exigência ficará mais evidente à medida que o país voltar a crescer de forma sustentada, demandando mão-de-obra cada vez mais especializada. Sinais neste sentido já aparecem em alguns setores mais aquecidos neste ano e que utilizam pessoal especializado. "É um bom problema que deve ser enfrentado desde agora pelo governo e iniciativa privada, com a realocação de esforços na educação e capacitação", enfatiza Julio Gomes de Almeida, diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Foto:
Existem razões de sobra para uma maior atenção aos recursos humanos. As deficiências da mão-de-obra estão entre as quatro principais restrições ao crescimento da competitividade do Brasil - as outras são capital, infra-estrutura e tecnologia -, segundo o Indicador de Competitividade da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (IC-Fiesp), elaborado com dados de 2002. O levantamento classifica o Brasil em trigésimo-nono país mais competitivo entre 43 nações pesquisadas. Parte considerável do diferencial competitivo de uma companhia depende da qualidade de vida de seus colaboradores e de seu entorno, bem como das condições internas de trabalho, avalia Nardeci Castro, coordenadora geral do Prêmio Sesi de Qualidade no Trabalho (PSQT). O tema será debatido hoje, em Brasília, em um seminário promovido conjuntamente pelo Sesi e pelo Valor, que antecede a premiação dos vencedores da edição 2004 do prêmio. Foto: Ruy Baron/Valor
Trabalhadores na indústria em diferentes regiões do país: formação ainda é um gargalo
O potencial de ganhos de produtividade - resultado da proporção entre o volume de produção de uma indústria e as horas trabalhadas pela mão-de-obra- a partir do ambiente de trabalho é amplo. O incremento de 7,2% na produtividade industrial registrado no primeiro semestre deste ano em relação a igual período anterior, depois de cinco anos de estagnação ou baixo crescimento, conforme revelou recente estudo do Iedi, resultou das novas formas de gestão adotadas a partir de 2001 para minimizar os efeitos da crise, e dos investimentos em máquinas e equipamentos que fluíram mais em 2003. O ambiente de trabalho propriamente dito teve pouca influência no salto positivo, essencial para a competitividade. Manter esse ritmo de produtividade vai depender de vários fatores, entre eles o incremento da inovação tecnológica, em que a qualidade do trabalho tem importância fundamental. Por isso, o tema vem ganhando destaque na agenda de entidades empresariais, sindicais e acadêmicos. Na opinião do coordenador de Políticas Econômicas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco, o mundo do futuro é do conhecimento. "Além disso, a globalização nos força a, no mínimo, acompanhar os nossos concorrentes." Segundo ele, para ter uma produção competitiva, um país precisa de trabalhadores qualificados, o que só acontece quando há escolaridade elevada e capacitação continuada. Foto: Ricardo Benichio/Valor
Enquanto nos países desenvolvidos os trabalhadores do setor produtivo possuem no mínimo o segundo grau, no Brasil a indústria ainda luta para ter na média o primeiro grau como nível de instrução de seus empregados, sublinha o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Claudio Vaz. Embora o país gaste cerca de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) com educação, a taxa de escolaridade e de alfabetização ainda é relativamente baixa: a média é de 4,9 anos de estudo; nos países mais competitivos atinge 9,9 anos. O que faz a diferença em empresas que operam nas mesmas condições de tecnologia e capital é o fator humano, assinala o presidente do Ciesp. "Um dos maiores equívocos ainda existentes no meio empresarial é acreditar que o treinamento substitui a educação." A experiência acumulada por ele em trinta anos na atividade industrial mostra que o treinamento só é absorvido pelo trabalho em função de seu grau de escolaridade. Foto: Ricardo Benichio/Valor
Mesmo que as condições estruturais do país ainda estejam aquém das necessidades, a competição tanto no mercado interno quanto externo vem provocando um movimento na direção da maior qualificação. As empresas estão exigindo cada vez mais a multifuncionalidade - a capacidade de fazer tarefas com certa seqüência e de forma simultânea. Essa habilidade se tornou fundamental para a qualidade incorporada ao processo de produção. O maior grau de escolaridade exigido pelas empresas de seus quadros funcionais também foi indicado pela Pesquisa de Atividade Econômica Paulista realizada pela Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados), com base em dados de 2001. "Entre as grandes indústrias, apenas 5,9% abriam mão de algum nível de escolaridade para as funções semi-qualificadas", observa o economista Alexandre Loloian, da equipe de análise de pesquisas do emprego e desemprego. Já para os cargos qualificados, 62,4% das indústrias com mais de 500 funcionários exigem ensino médio. Do ponto de vista do trabalhador, quanto maior a escolaridade, maior o rendimento. De acordo com o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), em 2004, na região metropolitana de São Paulo, a média de rendimento real mensal para analfabetos era de R$ 374,00; para quem tinha ensino fundamental o ganho subia para R$ 519,00, saltando a R$ 620,00 para os que tinham ensino médio incompleto. Os trabalhadores com curso superior, mesmo incompleto, ganhavam em média R$ 932,00, enquanto aqueles que tinham concluído curso universitário recebiam R$ 2.672,00.