Título: Corte na Selic de 0,75 ponto mantém a dose do aperto
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 13/01/2006, Finanças, p. C1

Copom Número menor de reuniões em 2006 exige reduções mais fortes

A manutenção do ritmo de 0,50 ponto percentual de queda da taxa Selic, definido na reunião de outubro do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, irá significar, na prática, um reforço do aperto monetário. Reduzir o juro básico de 18% para apenas 17,50% será uma opção pela ampliação do conservadorismo monetário. A opinião é sustentada por economistas consultados pelo Valor ontem para justificar seu prognóstico de que, na reunião marcada para a próxima quarta-feira, o Copom irá aumentar nominalmente a baixa para 0,75 ponto percentual. Em termos efetivos, manteria no mesmo tamanho a dose do desaperto. Dos 18 analistas consultados, 15 acreditam nessa possibilidade. Se o Copom acelerar o compasso de queda para 0,75 ponto este ano estará mantendo implicitamente o ritmo anterior porque em 2006 ocorrerão apenas oito reuniões formais do Comitê, contra 12 em 2005. As contas são feitas pelo economista-chefe da ABN Amro Asset, Hugo Penteado: no primeiro semestre de 2006, haverá quatro reuniões (nos meses de janeiro, março, abril e maio); baixas de 0,75 ponto em cada um desses quatro encontros permitem acumular redução de três pontos; se chegaria a esse mesmo resultado se, pelo sistema antigo de uma reunião por mês, fosse feito corte de 0,50 ponto em seis reuniões no semestre. De um jeito ou de outro, a Selic fecharia o semestre em 15%. Se o BC mantiver o ritmo em 0,50 ponto, a taxa cairá para 16% no final de junho, configurando uma overdose de austeridade monetária. Penteado lembra que as decisões que serão tomadas nessas quatro reuniões agendadas para o primeiro semestre serão cruciais para definir inflação e crescimento para todo o ano. Isso ocorre porque há uma defasagem de seis a nove meses entre a tomada da decisão e o seu efetivo impacto sobre preços e atividade. "A política monetária tem, no Brasil, esse atraso para transmitir completamente o seu impulso para a demanda agregada", diz o economista da ABN Asset. Não há justificativa para o BC, ao sustentar o diapasão de 0,50 ponto, aumentar a dosagem do remédio. "Se quiser acelerar a queda de taxa de juros, o BC terá que considerar cortes maiores do que 75 pontos-base", diz relatório da A.C. Pastore & Associados, consultoria do ex-presidente do BC, Affonso Celso Pastore. O economista-chefe do Banco Real, Mário Mesquita, não vê a possibilidade de o BC ampliar o grau de descompressão monetária e reduzir a taxa em 1 ponto. Se o corte de 0,75 ponto sustenta a ortodoxia, baixa de 1 ponto contraria a tendência do Copom de exercitar-se apenas com movimentos suaves. Não há, para Mesquita, razões inflacionárias seja para exacerbar o aperto mediante corte de meio ponto seja para ampliar a flexibilização com queda de um ponto. O economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa, lembra que um dos dados mais observados pelo Copom - o hiato do produto - está negativo, ou seja, o PIB potencial é maior do que o real. Por esse ângulo, não há pressões sobre preços decorrente de demanda não atendida. Pelo contrário, há hoje mais oferta e capacidade ociosa. Os riscos sobre a inflação provêm de choques eventuais, como alimentos e telefonia (que passa por uma reestruturação tarifária). O diretor da Modal Asset, Alexandre Póvoa, diz que o intervalo entre uma reunião e outra do Copom, de 45 dias, é muito longo, se dados ruins sobre atividade econômica continuarem saindo ele pode não dispor de tempo hábil para reagir mais prontamente. "O BC não gosta de correr riscos, mas acontece que os riscos são cada vez menores, não há por que não ser mais arrojado agora", recomenda Póvoa. Os repiques da inflação presente, além de pontuais e previsíveis, não representam risco porque o BC, por causa do instrumento cambial, tem a inflação na mão. Se ela ameaçar um soluço mais forte, basta reduzir à metade a oferta atual diária de US$ 400 milhões em contratos de swaps reversos para a taxa de câmbio vir abaixo e auxiliá-lo no combate à inflação sem precisar acionar um reconservadorismo monetário. No entender do economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, após dois cortes de 0,75 ponto nas reuniões de janeiro e março, o Copom promoverá uma pausa técnica destinada a avaliar os resultados da flexibilização monetária, bem como os efeitos sobre a inflação produzidos pelo aumento de gasto do governo. Para Agostini, o cenário será tenso a partir da segunda metade do ano. "O motivo é a expectativa de aceleração da inflação, visto que é esperado um aumento de preço das commodities agrícolas e, como não deverá faltar este ano, o risco da eleição gerar ruídos na taxa de câmbio e esta influenciar os IGPs", diz o economista. Agostini ressalta que quando a taxa de câmbio é para baixo o repasse para a inflação é moderado e feito em etapas, mas quando o câmbio é para cima (desvalorização do real) os reajustes são imediatos e, na maioria das vezes, acima do que a moeda foi efetivamente depreciada.