Título: Serra defende mudanças na política econômica
Autor: Cristiane Agostine e Raquel Landim
Fonte: Valor Econômico, 17/01/2006, Política, p. A7

Eleições Alckmin faz discurso suave e afirma que quem fizer campanha negativa "corre o risco de falar sozinho"

O prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB), sinalizou ontem que não pretende desistir de ser o candidato de seu partido à Presidência da República. No primeiro encontro público com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, desde que o segundo disse que sairá do cargo antes do prazo final de desincompatibilização, em 31 de março, Serra mostrou que se for o escolhido, sua plataforma de governo para a economia já está estruturada. Taxa de juros menor, mudança na taxa de câmbio, com lei de responsabilidade cambial e seguro para o câmbio são algumas das medidas defendidas pelo tucano. Nos últimos dez dias, Serra tem evitado falar sobre a disputa interna do PSDB e sua possível candidatura. Seu único comentário sobre a postura de Alckmin foi de que "não se sente, nem se sentirá pressionado" pelo colega tucano. Ontem, a uma platéia de empresários do setor calçadista, com vocação exportadora e competitividade muito afetada pelo câmbio, na abertura da feira Couromodas 2006, em São Paulo, Serra defendeu alterações na política econômica e garantiu que elas serão feitas. "Nossa economia pode funcionar com uma taxa de juros bem menor, com uma taxa de câmbio bem maior e com estabilidade de preços. Estejam certos de que isso vai ser feito no nosso país", disse. O prefeito paulistano defendeu medidas para controlar o câmbio que, em seu entendimento, está " super valorizado, acima de qualquer razoabilidade" e para diminuir os juros, que classificou como "siderais". "Não basta uma Lei de Responsabilidade Fiscal. É preciso também ter uma lei de responsabilidade cambial", defendeu. "Nós temos, inclusive, que criar seguros para o câmbio, para momentos de turbulência, para poder proteger a atividade produtiva. Isso poderá ser feito com uma política econômica de credibilidade, com direção, com rumo. É isso que o Brasil precisa para o futuro." Questionado por jornalistas sobre quem fará essas mudanças, o prefeito tergiversou e disse que será a "população brasileira através do processo eleitoral neste ano". O tom de discurso de candidato estava claro nas palavras de Serra. O prefeito criticou a política de transferência de renda do governo federal, a política externa e a falta de apoio do governo ao setor produtivo. "Há um viés ideológico anti-indústria em nosso País. E esse viés tem efeito direto sobre as possibilidades de desenvolvimento e de geração de empregos". Sentados próximos, os tucanos trocaram poucas palavras durante o evento e demonstraram uma situação pouco confortável para os dois. Poucos minutos após o discurso de Serra, Alckmin defendeu "juros condizentes" e disse que não há "nada que justifique taxa real de 13%". O governador criticou o câmbio por prejudicar as exportações, mas sua plataforma de governo para os empresários foi focada na desoneração do setor produtivo e a defesa de reformas trabalhista e tributária. Com estratégia diferente da de Serra, Alckmin evitou críticas diretas ao governo Lula e propôs uma campanha eleitoral com mais proposições e menos ataques: "Quem fizer campanha contra Lula, contra o PT corre o risco de falar sozinho". O governador comparou-se ao ex-presidente Juscelino Kubitschek, por ter o " mesmo desejo de mudanças rápidas", como as defendidas no lema de JK, "50 anos em 5". Em sua análise, o país precisa avançar "em questões de emprego, renda e salário". Junto a outro presidenciável, o governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto (PMDB), Alckmin aproveitou para costurar uma aliança com os pemedebistas para sua possível campanha. Rigotto descartou a possibilidade de acordo com o PSDB no primeiro turno das eleições presidenciais. Acredita que o partido pode chegar ao segundo turno e que seu nome é uma alternativa entre PT e PSDB. "Eu não falo na hipótese de não estar no segundo turno", disse o governador gaúcho. "O PMDB tem que retirar os rótulos de fisiologismos, clientelismo, que grudaram no partido ao longo desses anos. Não vamos recuperar esse tempo perdido atrelado a outro partido". O governador registrará sua pré-candidatura no PMDB na quarta-feira. Ele quer garantir a realização da prévia no partido até o fim de março e tirará 25 dias de férias para fazer campanha. Rigotto disputa a indicação do PMDB com o ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho. Outra possibilidade para o PMDB é o ministro do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim. Na avaliação de Rigotto, a prévia não rachará o partido, pois "o vencedor apoiará o vencido".