Título: Dívida pública vai ultrapassar a marca de R$ 1 trilhão este ano
Autor: Altamiro Silva Júnior
Fonte: Valor Econômico, 17/01/2006, Finanças, p. C2

A dívida pública mobiliária interna do Brasil vai ultrapassar este ano a marca de US$ 1 trilhão, prevê o Tesouro Nacional, quase o dobro do que era antes do início do governo Lula, em dezembro de 2002 (R$ 623 bilhões). Pelos números do Tesouro divulgados ontem, a dívida deve ficar entre R$ 1,13 trilhão e R$ 1,2 trilhão, segundo o Plano Anual de Financiamento (PAF) apresentado ontem em São Paulo pelo secretário do Tesouro, Joaquim Levy. Apesar do aumento da dívida, Levy ressalta que ela agora é bem diferente do que era em 2002. A composição mudou e os prazos aumentam. "O Brasil nunca teve parcela importante da dívida em papéis prefixados e com prazo superior a um ano", afirma Levy. Para 2006, a idéia é continuar a estratégia que começou em 2003: aumento da emissão de papéis prefixados, redução da venda de títulos públicos atrelados a Selic (a taxa básica de juros, hoje em 18% ao ano), aumento dos papéis atrelados a índices de preços (IPCA e IGP-M) e parar de emitir papéis com variação cambial. Apesar das eleições, Levy vê com "tranqüilidade expressiva" o cenário para este ano e acredita que o Tesouro não deve ter dificuldades em continuar sua estratégia. O caixa do Tesouro, segundo ele, permite que se fique até quatro meses sem fazer emissões. Segundo o PAF, há R$ 481,5 bilhões de títulos públicos vencendo este ano, a maior parte antes das eleições. O orçamento da União prevê R$ 62,1 bilhões para pagar dívidas. Assim, o governo precisa financiar R$ 419,4 bilhões. Na dívida externa, vão vencer R$ 30,1 bilhões (US$ 12,1 bilhões). O Tesouro tem em caixa US$ 10,5 bilhões, suficientes para arcar com 85% destes vencimentos. O dinheiro veio de compras de dólares no mercado e das emissões soberanas. Nos papéis indexados à Selic (as LFTs), a participação no total da dívida vai cair abaixo dos 50% pela primeira vez desde a crise da Ásia, em 1997. Há um ano, estava em 59,46%. A previsão para este ano é que ela fique entre 39% e 48%. Já os papéis prefixados, que representavam quase nada da dívida em 2002, agora deve ficar entre 28% e 37% do total. Com a mudança do perfil, ela ficou menos sujeita a variações abruptas dos indicadores econômicos, como aconteceu durante a crise da Ásia e da Rússia. Em 2002, se houvesse algum choque na economia que aumentasse os juros ou mexesse no câmbio, haveria um impacto de R$ 331 bilhões na dívida total (interna e externa). Se isso acontecesse hoje, o impacto seria de R$ 113 bilhões. "A redução da sensibilidade da dívida a cenários de estresse foi de mais de 65%", diz Levy. Para o perfil da dívida continuar melhorando, o secretário do Tesouro argumenta que é necessário que haja, entre os investidores e analistas do mercado, segurança sobre as perspectivas para os próximos anos. "É preciso haver uma avaliação lúcida a respeito dos riscos num horizonte de médio prazo e notar que estamos numa perspectiva macroeconômica diferente", disse. Outro desafio é atrair mais estrangeiros para o mercado local. O que traria mais demanda para os papéis do governo. Segundo Levy, a expectativa é que ainda este ano eles já possam comprar títulos públicos aqui.