Título: Sarney critica realização de prévias do PMDB em março
Autor: Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 18/01/2006, Política, p. A8

Enquanto o presidente do Senado, Renan Calheiros, dizia ontem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que uma aliança entre PT e PMDB, nas eleições de 2006, é difícil mas não impossível, o ex-presidente José Sarney atacou a decisão do partido de escolher um candidato em março: "Se nenhum partido escolheu candidato, se as regras de candidatura não estão definidas, nem o presidente disse ainda que será candidato, porque o PMDB já vai escolher sem ter candidato nato, sem candidato de densidade nacional?", questionou o ex-presidente em conversa com o Valor. "Eu acho que isso é uma coisa que não tem sentido em matéria de objetividade política". Na conversa com o presidente, Renan relatou a determinação do governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, em disputar a prévia do PMDB, para a qual se inscreve hoje. No entendimento da ala governista do partido, "prévia não significa candidatura". Na conversa com o Valor, Sarney também tratou a prévia com desdém. "Sem a definição dos outros candidatos, dos outros partidos, não tem muita significação", disse. Com Lula, o presidente do Senado argumentou que a definição sobre a verticalização das alianças vai nortear o comportamento do PMDB. Caso lance uma candidatura à Presidência num quadro em que a verticalização seja mantida, o partido teria que caminhar sozinho nos Estados. Sarney é mais incisivo ao tratar dessa questão: "Não se sabe se vai ter verticalização ou não. Se tiver, o PMDB é obrigado a não ter candidato, porque se não acaba com o partido. As bancadas vão ser destroçadas", disse. Lula disse a Renan que continua a trabalhar para uma aliança com o PMDB. O presidente da Câmara, Aldo Rebelo, também participou da reunião. A aliança entre os dois partidos não está descartada, mas publicamente Renan avaliou que ela é improvável: "Vocês acham que há clima para compor com o PT ou com o PSDB? Eleição em dois turnos existe para os partidos apresentarem candidatos no primeiro turno", disse aos jornalistas. Parte da cúpula do PMDB voltou a trabalhar pelo adiamento de alguns dias da prévia em que será escolhido o pré-candidato do partido. A data original seria 5 de março, mas havia negociação para adiá-la para o dia 19 de março. Após a conversa com Lula, Renan Calheiros afirmou que o único partido que tem pressa para definir a candidatura à Presidência é o PSDB, por conta do prazo da desincompatibilização até 31 de março. Além de alfinetar os tucanos, Renan afirmou ainda que nem Anthony Garotinho nem o governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, são nomes que "entusiasmam o PMDB". O PMDB mandou ainda o seguinte recado para Lula: para início de conversa entre as duas legendas, o presidente da República terá que interferir na disputa em Goiás, Alagoas, Amazonas, Espírito Santo, Santa Catarina e Paraíba para viabilizar que os pemedebistas tenham a cabeça de chapa. Sem isso, não há chance de diálogo. "O PSDB é que tem pressa. Nós não. O prazo para as convenções nacionais é até 10 de junho. Nós (o PMDB) não compartilhamos de um quadro de escassez de dois nomes. Precisamos de um nome que unifique o partido. Não há ainda no PMDB um convencimento em relação ao menor nome. Garotinho e Rigotto não são nomes que entusiasmam o PMDB", disparou o presidente do Senado. Segundo Renan, Lula sempre esteve consciente de que o PMDB poderia ter candidato próprio. Para o senador, a saída do PMDB do governo agora significaria desestabilização e paralisia. Ele considera incompatível a manutenção dos três ministros do PMDB no Governo se o partido optar pela candidatura própria à Presidência. Lula fez um relato aos presidentes da Câmara e do Senado das viagens que pretende fazer no ano eleitoral e das obras que vai inaugurar. (Colaborou Paulo de Tarso Lyra)