Título: Múltis ficam com 10% do total dos empréstimos do BNDES
Autor: Vera Saavedra Durão
Fonte: Valor Econômico, 19/01/2006, Brasil, p. A3

Conjuntura Valor de R$ 4,7 bi liberado em 2005 para estrangeiros é recorde

As aprovações de recursos do BNDES para investimentos de empresas de capital estrangeiro somaram R$ 4,7 bilhões em 2005, correspondentes a 10% dos empréstimos totais aprovados no período. Em termos absolutos, o valor é recorde na história da instituição de fomento. Os projetos de investimento direto estrangeiro mais beneficiados com os recursos do BNDES foram os do setor de infra-estrutura e da indústria, com destaque para empresas de siderurgia, agronegócios, montadoras além das áreas de energia elétrica e telecomunicações. Em 2003, foram liberados R$ 3 bilhões para as subsidiárias de multinacionais, ante R$ 1,1 bilhão em 2003. Em termos relativos, no confronto com 2004, o crescimento foi de 54,95%, percentual bem inferior aos 172,62% na comparação de 2004 com 2003, período da administração do assumido nacionalista Carlos Lessa. O diretor da Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB), José Augusto de Castro, lembra que antes dos anos 90, o BNDES era proibido por estatuto de emprestar às empresas de capital estrangeiro, alegando que tinham mais acesso a recursos para investir do que as de capital nacional. Porém, ao comentar os números do banco, disse que não é contrário a essa iniciativa, principalmente porque a instituição de fomento está com dinheiro sobrando. Se forem computados ainda os recursos liberados pelo banco, em 2005, no âmbito do BNDES-Exim para financiamento à exportação das estrangeiras, da ordem de R$ 5 bilhões, mais os créditos aos importadores, de R$ 2 bilhões, totalizando R$ 7,1 bilhões, o valor destinado pela instituição de fomento às subsidiárias das múltis alcança R$ 11,9 bilhões, ou 25% dos desembolsos totais. Em 2004, essa conta fechou em R$ 8,5 bilhões e, em R$ 6,8 bilhões, em 2003. As estrangeiras da área de energia elétrica como Light, Elektro, AES Sul, Bandeirante Energia, TermoPernambuco e Eletropaulo, entre outras, receberam R$ 1,2 bilhão do banco. As empresas de telecomunicações, como a operadora Tim Celular, tiveram aprovados R$ 721 milhões. No setor industrial, as internacionais do agronegócio, como a Cargill, levaram R$ 285,4 milhões e as montadoras, como Ford, GM, Fiat, Renault e Volkswagen, R$ 892 milhões. Na metalurgia e mecânica, foram desembolsados quase R$ 300 milhões para Belgo Mineira, Techint e outras. As automobilísticas foram as mais destacadas no âmbito do BNDES-Exim, recebendo R$ 4,6 bilhões para exportarem seus veículos. O setor de mecânica também se sobressaiu, com as internacionais recebendo crédito à exportação de R$ 1,4 bilhão. Na área de Planejamento do BNDES a avaliação é que o aumento da fatia das estrangeiras no bolo total das aprovações da instituição de fomento tende a crescer. O investimento direto das multinacionais nos países periféricos é visto como uma tendência global para se contrapor ao desafio chinês, observam as fontes. Não há impedimento a que essas companhias recebam recursos orçamentários oriundos do FAT, corrigidos pela TJLP mais 15% de cesta de moedas. Tal restrição foi abolida por Decreto Lei 2.333. Castro, da AEB, acredita que os financiamentos corrigidos pela TJLP destinado às montadoras no BNDES-Exim, visam a compensar a taxa de câmbio sobrevalorizada. "O governo vai fazer isso também com o setor calçadista, como foi proposto em Brasília. O ideal seria que o câmbio tivesse um patamar mais elevado. Não gosto de artifícios, não é lei de mercado, mas se não há outro jeito, que se aplique. Não podemos esquecer que o banco está com dinheiro sobrando." O economista Antonio Corrêa de Lacerda, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), acredita que filosoficamente o BNDES priorize a empresa nacional, mas defende que os desembolsos contemplem as empresas estrangeiras, principalmente num cenário mundial de competição feroz. "Afinal, 10% do orçamento ou mesmo 25% é muito pouco. E precisamos lembrar que essas empresas respondem por 40% da estrutura industrial brasileira e por 60% das nossas exportações."