Título: Pagamento para o FMI cria déficit financeiro
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Fonte: Valor Econômico, 20/01/2006, Finanças, p. C8

O Brasil registrou em 2005, pelo segundo ano seguido, déficit na conta de capitais e financeira, de US$ 8,808 bilhões. Mas o saldo negativo não pode ser interpretado por uma menor disponibilidade de capitais ao Brasil. É apenas uma conseqüência da decisão de pagar antecipadamente a dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Se o Brasil não tivesse pagado a dívida, no valor de US$ 23,271 bilhões, a conta financeira e de serviços teria registrado um superávit da ordem de US$ 15 bilhões. O grosso do superávit se deve aos investimentos estrangeiros diretos, que somaram US$ 15,123 bilhões, mas a grande surpresa nos números foram os investimentos no mercado de ações. Os estrangeiros investiram nas bolsas brasileiras o total de 6,451 bilhões no ano, patamar que não se se via desde 1997. "O mais interessante é que tivemos um forte investimento nas bolsas dentro do Brasil, e não por meio de ADRs", afirmou o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes. Também as captações de empresas privadas foram maiores em 2005 que no ano anterior. As operações somaram US$ 9,006 bilhões, o que significa a renovação de 94% dos compromissos que tiveram vencimento no ano. A taxa foi superior à registrada em 2004, quando as empresas renovaram apenas 63% dos compromissos vencidos - reduzindo, dessa forma, o seu endividamento externo. O país preferido para as captações privadas em títulos foi o Japão, com emissões totais de US$ 2,016 bilhões, num levantamento do BC que inclui apenas operações a partir de US$ 1 milhão. Em seguida, vêm Ilhas Cayman (US$ 1,861 bilhão) e Estados Unidos (US$ 1,713 bilhão). O Tesouro Nacional captou US$ 12,49 bilhões por meio da emissão de bônus da República, mais do que o dobro dos US$ 5,728 bilhões registrados no ano anterior. O volume captado representa 115,62% das amortizações ocorridas no período. Como o Tesouro pagou o grosso de seus compromissos com recursos comprados no mercado de câmbio (US$ 9,321 bilhões), o lançamento de bônus significou, na verdade, o pré-financiamento de compromissos que vencem neste ano e nos próximos. Apesar dos altos juros internos, o volume de capitais que ingressou no país para ser investido em títulos de renda fixa foi pequeno: US$ 689 milhões. Os investidores estrangeiros têm preferido montar suas operações de arbitragem entre juros internos e externos nos mercados futuros, nos quais evitam custos de transação e impostos. (AR)